Fala-nos do amor!

Então, Almitra disse: ‘Fala-nos do amor’


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E ele ergueu a fronte e olhou para multidão, e um silêncio caiu sobre todos, 
e com uma voz forte, disse:

 – Quando o amor vos chamar, segui-o,
 embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados. 
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe, 
embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos.


E quando ele vos falar, acreditai nele,
 embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos como
o vento devasta o jardim.

Pois, da mesma forma que o amor vos coroa, assim
 ele vos crucifica. Da mesma forma que contribui para 
vosso crescimento, trabalha para vossa poda.
 E da mesma forma que alcança vossa altura e acaricia 
vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol, 
assim também desce até vossas raízes e as sacode no
seu apego à terra. 
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.


Ele vos debulha para expor vossa nudez.
 Ele vos peneira para libertar-vos das palhas. 
Ele vos mói até a extrema brancura.
 Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
 Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma 
no pão místico do banquete divino. 
Todas essas coisas, o amor operará em vós para que 
conheçais os segredos de vossos corações e, com esse 
conhecimento, vos convertais no pão místico do banquete divino.



Todavia, se no vosso temor, procurardes somente a
paz do amor e o gozo do amor,
 então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
e abandonásseis a eira do amor. Para entrar num mundo sem estações, onde rireis, mas 
não todos os vossos risos, e chorareis, mas não todas as 
vossas lágrimas. 
O amor nada dá senão de si próprio e nada recebe
 se não de si próprio. 
O amor não possui, nem se deixa possuir.

 Pois o amor basta-se a si mesmo.
 Quando um de vós ama, que não diga: ‘Deus está no 
meu coração’, mas que diga antes: ‘Eu estou no coração de Deus.’
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor
, pois o amor, se vos achar dignos, determinará ele próprio
o vosso curso. 


O amor não tem outro desejo se não o de atingir
 a sua plenitude. 
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos, sejam 
estes os vossos desejos: 
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
 que canta sua melodia para a noite. 
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada. 
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor. 
E de sangrardes de boa vontade e com alegria. 
De acordardes na aurora com o coração alado e agradecerdes por um novo dia de amor. 
De descansardes ao meio-dia e meditardes sobre o
êxtase do amor. De voltardes para casa à noite com gratidão. 
E de adormecerdes com uma prece no coração para o
bem-amado, e nos lábios uma canção de bem-aventurança.

Gibran Khalil

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