O Legado das Deusas

Kali

Jay Kali Ma!

Caminhos para a busca de uma nova identidade feminina
Por Cristina Balieiro

Aprendendo a pôr um fim.
Tradição indiana/hinduísmo, vedanta.

Seu Mito

Kali é uma das mais poderosas Deusas do hinduísmo. É venerada na India como uma manifestação de Devi, a Grande Mãe, de quem tudo se origina e para quem todos devem retornar. Calcutá, Kalika-ta em bengali, a cidade mais populosa da Índia e um dos principais portos do país, deve seu nome à Deusa Kali e é lá que fica seu templo mais importante, o Dakshineswar Kali.
Apesar de ter um traço materno forte, sendo considerada uma mãe protetora e benevolente para muitos devotos, Kali tem como característica mais marcante uma face bastante sombria, como Deusa da Guerra, da Destruição e da Morte. Neste posto, ela controla o poder do Tempo, que tudo devora.


É representada com uma pele bem escura, normalmente azul ou negra, seminua, usando apenas uma saia feita de braços humanos, adornada por um colar de caveiras, com o cabelo longo e desalinhado e a língua de fora. Tem quatro braços e traz nas mãos uma espada, o tridente de Shiva, uma tigela com sangue e uma cabeça decepada ou uma caveira. Normalmente é vista dançando vitoriosa sobre o corpo de Shiva. Sua morada é o chão dos crematórios, onde os elementos da matéria são dissolvidos, reforçando sua imagem arquetípico de vida-e-morte. 


Na mitologia hinduísta existem três pares de Deuses: Brahma, o Criador, e sua esposa Saraswati, a Deusa da Sabedoria; Vishnu, o preservador, e sua esposa Lakshmi, a Deusa da Fortuna; e Shiva, o destruidor, e sua esposa Parvati, a Deusa da Fertilidade. São pares pois na visão hinduísta/védica é o Princípio Feminino que ativa o Princípio Masculino. E todos os três pares são absolutamente necessários para a existência de tudo, alternando-se na criação cósmica, uma vez que para essa crença a vida é um eterno criar-preservar-destruir-recriar.


A doce e bela Parvati é a segunda esposa de Shiva, o Deus que dança, e a reencarnação da primeira, Sati. Ela tem a face dourada, se veste de branco e na carrega armas. Quando, porém, tem de ir à luta e combater inimigos, transforma-se na guerreira Durga, que tem dez braços, empunha uma lança pontiaguda e conta um leão.


Um dia, conta o mito, houve uma luta violenta entre Durga e o terrível demônio Mahishasura. Esse demônio era dotado de um poder muito perigoso: cada gota de seu sangue que caísse no chão se transformava em um novo demônio. Dessa forma, cada vez que Durga cortava a cabeça de um, surgiam vários outros. Durga foi ficando acuada com essa luta sem tréguas e mais e mais enfurecida com a situação, quando sua fúria atingiu o auge, de ser terceiro olho, de repente, saltou Kali.


Kali começou então a dançar de forma frenética e furiosa e, ao mesmo tempo, a cortar as cabeças dos demônios e a lamber o seu sangue antes que caísse no chão. Assim, eles não se reproduziam mais. E quanto mais sangue bebia mais queria dançar sobre os cadáveres e continuar a matar. Depois de ter dizimado todos os demônios, continuou a sua dança selvagem, matando e bebendo o sangue de tudo e de todos que via pela frente.


Percebendo que, com isso, o equilíbrio cósmico estaria em perigo, Shiva deitou-se no chão. Kali passou a dançar em cima do seu corpo, mas ao perceber que era seu marido, acalmou-se, parou de dançar e de matar, e o equilíbrio voltou.
Kali é a última linha de defesa contra os piores demônios: onde os poderes menores falham, Kali vence!

O que Kali pode nos ensinar

Kali não é bonita, não é suave, não é doce, não é politicamente correto, não se enquadra em nenhum modelo do Feminino visto como ideal: Kali é Kali.
Então, em primeiro lugar, ela vem nos confrontar com relação à imagem que queremos projetar no mundo versus a fidelidade que devemos a nós mesmas.


Essa questão da imagem é um problema tanto para os homens quanto para as mulheres, especialmente nesses tempos em que aparecer, às vezes, é mais importante do que ter e muito mais do que ser. Para as mulheres, o problemas é ainda maior. Durante milênios fomos doutrinadas a nos adequar à imagem da mulher perfeita, boa, feminina, linda, desejável. E muito da nossa autoimagem e da nossa autoestima ainda vem da adequação ou não a esses modelos.


No entanto, se nos apegarmos à imagem que queremos que os outros tenham de nós, não podemos realmente ser nós mesmas. Quantas vezes, temendo o que vão pensar de nós, nos diminuímos ou negamos facetas nossas porque elas não se adequam a nossa imagem projetada? Ou ficamos apegadas àquilo que é pobre, pequeno ou idealizado demais, que nos limita, que não dá conta de quem somos, para não mancharmos o que os outros acham de nós?


Temos quase terror de que os “famosos” outros não nos vejam mais como tão boazinhas ou adequadas ou fortes ou coerente ou seja lá o que for. Tememos que nos vejam como mulheres reais, como nosso limites e alcances.
Mas, se quisermos conhecer quem de fato somos e o que queremos para nossa vida, não podemos ficar presas a uma “personagem” que criamos para nós. Afinal, imagem é 2D, gente é 3D – essa metáfora das dimensões mostra que se ruma pessoa é muito mais complexo, rico amplo e contraditório do que ser uma imagem; e, se quisermos ser fiéis a nós mesmas. É preciso ter coragem de desconstruir para nos vermos com mais clareza e amplitude, com tudo de luz e sombra que carregamos.
E quanto mais nos afastarmos dos modelos coletivos, ou seja, quanto mais autênticas formos, mais teremos de encarar a desconstrução da “personagem de mulher adequada”. Muitas vezes dói, mas destruir nossa imagem para os outros e para nós mesma é essencial ao processo de estarmos cada vez mais próxima daquilo que somos em nossa essência singular. ao fazermos isso, incorporamos um pouco da força de Kali.


E essa primeira lição, apesar de muitas vezes ser bem difícil de se colocar em prática, é bem mais leve do a próxima. Kali não é uma Deusa sutil, nem meiga: é poderosa, enfurecida e muitas vezes traz lições duras.
Ela nos ensina sobre aqueles momentos extremos, quando precisamos matar coisas dentro de nós para não morrermos internamente. Muitas vezes um relacionamento amoroso ou familiar, um emprego, um trabalho ou um tipo de vida nos faz tão mal, nos tirando o respeito próprio, a autoestima e até a vitalidade, que no meio nos destrói por dentro. Mas, por medo de sair da situação e enfrentar as consequências disso, vamos “empurrando com a barriga”, muitas vezes nos iludindo com a ideia de que um dia tudo mudará para melhor. No fundo, se somos honestas conosco mesmas, sabemos que nada vai melhorar, pelo contrário, a tendência é se tornar pior. Só que temos a inclinação a “guardar” no que já conhecemos e só soltar em última instância, mesmo que essa situação conhecida seja detestável.


E parece que nós, mulheres, por termos sido doutrinadas durante milênios a nos sacrificar pelo outros, tendemos a suportar mais o insuportável. A única coisa que fazemos efetivamente é reclamar e nos fazer de vítimas. Mas isso não resolve absolutamente NADA! O que precisamos nessas horas é da ação assertiva, cortar na carne, assumir o controle da nossa vida e decidir acabar com o que nos consome. 


É aí que Kali entra para nos ajudar a destruir o que vem nos destruindo.
E destruir não só fora, na vida externa: é preciso também fazê-lo dentro de nós. Significa pôr um fim definitivo naquilo que vem nos fazendo tanto mal: um fim do “lado de fora”, saindo de forma concreta da situação, e um fim do “lado de dentro”, em uma atitude de desidentificar, desapegar, deixar ir. É saber dar fim àquilo que nos fere mortalmente, sem medo de ferir a quem for, mesmo que a nós mesmas, porque é uma guerra justa pela nossa sobrevivência emocional.
E Kali nos traz isto: o poder de reconhecer o que deve ser destruído e morto, bem como a coragem e a energia para fazer isso. Caso contrário, o preço a pagar pode significar a perda da nossa alma!

 

One Comment

  1. priscilla.bavs

    Belo ensinamento sobre Mãe Kali! Gratidão!
    🙏

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