O Yoga dos Deuses

Trabalho de Conclusão do Curso de “Formação em Yoga como suporte do Ayurveda 2020”.

Por Karol Piacentini

Ganesha existe no mais diminuto e no mais vasto, no mais próximo e no mais distante, no alto e o baixo, naquilo que chega a todos os lugares em um instante e naquilo que não se move. Ele é o Senhor do tempo e do karma, mas permanece eterno e inabalável. Possui, em perfeito equilíbrio, o poder transformador de Shakti e também a quietude auspiciosa de Shiva.

Ganesha: The Enchanter of the Three Worlds – Paul Martin-Dubost

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RESUMO

O presente título, assim como a tentativa de expressar em palavras, resume o que o yoga é para mim. Intitulo assim, não de forma engessada ou como uma mera representação, mas sim, a partir de minhas próprias vivências e experiências espirituais. Primeiro, as faces do Divino e da Divina chegaram até mim, posteriormente eu fui buscar as técnicas do yoga e suas ferramentas tão potentes e transformadoras, para com humildade e seriedade ter embasamentos teóricos. Estou apenas no começo de uma jornada.

Essa guiança, me faz desbravar caminhos e me faz mergulhar nas profundezas do meu oceano interior. O meu próprio Eu. Não como uma autoafirmação limitada, mas como a universalidade da consciência divina que habita em cada ser.
“O Yoga dos Deuses” se propõe a compartilhar experiências e trazer algumas divindades (ou poderes cósmicos do yoga) e suas simbologias. Que esse singelo estudo, possa despertar à vontade em navegar por dimensões ainda mais profundas do yoga, elevando e expandindo a nossa prática pessoal. O Yoga é uma busca de união com o Divino dentro de nós. Assim, existem poderes divinos interiores governando a prática do Yoga e facilitando nossas transformações interiores.

INTRODUÇÃO

Os primeiros passos

Desde a infância, percebia algo a me cutucar. Sempre fui atraída pelas filosofias e culturas orientais, como as linhas dentro do que se conhece como hinduísmo e budismo. Tive a oportunidade de caminhar com os Vaishnavas (conhecidos como Hare Krishnas), budistas e também com estudos meditativos na Self-Realization Fellowship do Guru Paramahansa Yogananda, além de poderosos livros que caiam em minhas mãos. Ficava muito à vontade nesses locais e me entregava a essas leituras, mas ainda não me reconhecia verdadeiramente. Não me conectava espiritualmente. Mas entendo que essas experiências foram me conduzindo até as minhas vivências mais profundas e libertadoras.

Um caminho – amplamente conhecido na Índia, mas praticamente sem referências no Ocidente – é o Devata, as divindades interiores ou poderes cósmicos do yoga. No pensamento yogue, esses grandes poderes do Universo Consciente são os Devatas mas podem ser definidos também como “princípios divinos”, ou “Deuses e Deusas” ou ainda, como “Divindades”. Os Devatas refletem a consciência divina que permeia todos os aspectos da natureza e nossa própria psique. Eles são poderes de luz e energia universais em forma de arquétipos, seres e forças, tudo em um. Podemos contatá-los como princípios, personalidades ou presenças, tanto externa como internamente.

Os Devatas ou Deuses e Deusas, refletem as grandes forças da natureza a partir dos cinco elementos: terra, água, fogo, ar e éter. Esses elementos formam os poderes fundamentais da criação até os princípios universais de tempo, espaço e energia, de acordo com a inteligência espiritual que lhes é subjacente. Essas Divindades dotam de forças cósmicas de faces e vozes que podem nos tocar pessoalmente, e permitir o nosso acesso a sua realidade superior em nossa própria consciência. Contudo, além do reino manifesto, as mesmas divindades refletem os diversos aspectos do Absoluto; a maneira como o Ser-Consciência-Êxtase infinito e eterno permeia o próprio tecido da existência e tudo o que nos seja possível experimentar.

Embora as manifestações dessas divindades nos textos yogues – como as inúmeras formas de Shiva, a Deusa (Devi) ou Vishnu – possam parecer estranhas ou distantes para muitos aqui no Ocidente, elas não são apenas formas culturais ou ícones de uma religião específica em contraposição à outra. Os Devatas são expressões simbólicas dos poderes cósmicos subjacentes a toda vida, que eles refletem em diversos atributos, nomes e funções. Eles são as faces do Prana, a luz da meditação, a beleza do êxtase, o corpo do espaço ou os ritmos da paz, à guisa de algumas comparações poéticas, e não apenas as expressões particulares de uma comunidade, sistema de crenças ou alguma outra alternativa.

As manifestações simbólicas dessas divindades, que incluem formas naturalistas de animais, plantas, pedras e estrelas, bem como formas humanas com diversos braços, ornamentos e armas incomuns, podem parecer bizarras para a mente moderna. Mas elas pretendem comunicar-se com o nosso ser interior, de acordo com uma linguagem intuitiva: a linguagem das imagens, cores e gestos, cujo significado é universal e ultrapassa as definições de qualquer mero dialeto humano. Quando adquirimos a compreensão da relevância cósmica das representações simbólicas, podemos aprender a trabalhar com elas facilmente como trabalhamos com as forças externas da natureza, como o vento ou a luz do sol.

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Uma comunhão interna com as divindades é a base de uma profunda prática do Yoga, baseada na experiência, que flui com uma profunda energia e transporta as bênçãos de toda vida.
O nome tradicional para o culto interior dos Devatas, ou Deuses e Deusas, na tradição do Yoga é Devata Yoga ou “Yoga da Divindade”, uma prática que não apenas permeia a religião hindu, mas que os budistas tibetanos também empregam e é central a todas as tradições tântricas e védicas.

O Yoga da Divindade envolve o trabalho com os poderes divinos no sentido externo, por meio das formas da veneração (Bhakti Yoga), e no sentido interno, através das práticas yogues de pranayama, mantra e meditação. Por intermédio desses processos, as Divindades desenvolvem o jogo inteiro da criação cósmica, assim como revelam o caminho além do mundo manifesto até o Absoluto.

O nosso próprio crescimento espiritual e yogue é o desabrochar da divindade, o Deus ou a Deusa dentro de nós.

Me permitam, contar-lhes então, o início desse despertar. Há dois anos, em uma vivência em grupo, promovida por dois terapeutas, sem cunho religioso, me fez ter a minha primeira experiência. Uma abertura ao fluxo da graça divina; quando pude sentir o poder da divindade interior rumo ao contato com o meu Ishta Devata. Ishta – é a nossa forma escolhida do Divino, a nossa própria divindade interior especial.

Apesar de na época já conhecer algumas formas Divinas dentro do escopo hinduísta, eu não seguia a filosofia a fundo, apenas me interessava, mas ainda não havia me apropriado internamente dessa experiência.
Posso lhes dizer que nesse período, eu estava saindo de uma crise de ansiedade. Na época fiz alguns tratamentos com florais de Bach, iridologia, acupunturas, jogos de búzios e tarô e também na psicologia convencional.

Até que fui convidada para uma vivência terapêutica xamânica. O Xamanismo é uma prática de tratamento ancestral, com cerca de 40.000 anos de existência. É um conjunto de técnicas psíquicas e energéticas, resgatadas da sabedoria ancestral, com o objetivo de nos guiar para um estado de harmonia, felicidade e poder pessoal.

É um processo terapêutico complementar que trabalha a libertação de emoções bloqueadas, profundamente enraizadas e que geram sofrimento e dor inconsciente. É um resgate de muitas das partes perdidas e/ou esquecidas de nós mesmos, atuando para a totalidade do ser.

O encontro tinha apoio de ajudantes espirituais, chamados de guardiões. Viajamos pelo mundo não comum de forma a abrir os 13 portais de Consciência Superior e resgatar partes nossas, fazer profundas limpezas espirituais, libertação de karmas e desbloqueios energéticos.

Foi em uma dessas “portas”, que iniciou a minha jornada naquele dia. Não sei se conseguirei expressar em palavras a potência daquele renascimento.
Em uma das meditações guiadas, primeiramente o processo se iniciou, com muita limpeza física: vômitos, bocejos, choro. Muito choro.

Em um determinado momento, senti o meu corpo arder terrivelmente, como se eu estivesse dentro de uma fogueira. Desde os pés, até o topo da cabeça. Era algo interno, mas sentia no meu corpo físico. Foi um momento de muita dor. Inexplicavelmente visualizei dentro do meu corpo, três ‘Mulheres’, de uma beleza Extraordinária. Elas estavam vestidas de verde. Rostos verdes, mãos verdes. Me disseram que eram três

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aspectos da Divina Mãe Natureza. Elas sorriam lindamente e diziam-me que a dor seria grande, mas que logo ia passar. Me pediram permissão para continuar esse processo de purificação. Apesar do estado dolorido, aterrorizante em que eu me encontrava, senti uma confiança, uma certeza de que estavam cuidando de mim. Que estavam me ajudando a me libertar do medo, da angústia, da autopunição, da raiva, da tristeza e das fugas infindas que cometi, de me reencontrar comigo mesma. Não hesitei: continuei o processo. Me entreguei profundamente àquele momento. Estava na hora de voltar para Mim.

Alguns instantes depois (não me recordo o tempo de duração desse processo), a minha mente me levou até em casa, onde eu tinha um pequeno altar com Sri Ganesha (o deus da prosperidade) e uma outra estatueta de Buda. E também havia um japamala quebrado. A minha primeira missão, era me desfazer do japamala e dar atenção àquele altar abandonado e inutilizado. De repente em cima daquele pequenino altar, eu visualizei um pé gigante azul. Na hora associei ao Lord Krishna, já que, era uma Divindade que eu tive mais contato, no breve período de andanças com os Vaishnavas. Em torno do meu altar, eu visualizava também alguns felinos: tigres, onças, leões.

Achei que estava sonhando. Mas estava bem acordada. Meu corpo estava naquele local terapêutico, e minha alma estava em minha casa, vislumbrando aquela visão e tentando entender como era possível estar em dois locais ao mesmo tempo.

Retornei daquele momento exímio, com o meu corpo leve. Firme e curado. Naquele dia recebi algumas mensagens, missões, dentre uma delas, me aprofundar no Yoga e no Ayurveda. Ouvia Deus falando comigo. Ouvia a sua voz. Digo isso com uma certeza que nunca conseguiria expressar em palavras.

Esse local, onde me encontrava, era um sítio. No momento da roda de compartilhamentos, deitada na grama, senti algo no meu pescoço. Era uma serpente. Dessa vez não era uma visão, era o próprio animal, passando pelo meu pescoço de forma gentil. Levantei, mas estranhamente eu não sentia medo, e a serpente me olhava atenta. Ela também não temia a minha presença. Os organizadores/terapeutas daquele espaço se aproximaram e ficaram estupefatos, pois em muitos anos de vivências naquele local, nunca havia aparecido um animal de tamanho respeito. Logo, a serpente se foi mata a dentro.

Voltei para casa repleta de sensações: é como se eu estivesse dormindo durante muitos anos, e que fui desperta por algo completamente desconhecido, mas que ao mesmo tempo, me parecia familiar e aconchegante. Voltei com a certeza de que aquele pé azul gigante sobre o meu altar, era de Visnhu/Krishna. Passei em torno de quinze dias, procurando uma estatueta para colocar no centro do meu altar, e nada dava certo para a aquisição da mesma. Até que um dia, sentei em frente ao altar, respirei fundo e comecei a aquietar. Entrei em meditação, e a minha mente me levou até aquela vivência, no momento do encontro com a serpente. Foi quando a vi, enrolada no meu pescoço, e “algo” soprou em meu ouvido: Sou eu, Shiva. Aquela mesma voz. Uma voz familiar, que “me queimou”, me curou e conversou comigo durante meu renascimento naquela vivência.

Foi então que tudo começou a fazer mais sentido, principalmente quando fui pesquisar mais sobre o Deus Shiva, sua simbologia. Sua representatividade ia de encontro com tudo o que eu havia sentido/vivido especialmente naquele dia.

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Apesar de, desde da minha adolescência (através da minha mãe), ter tido certo contato com as imagens, os mantras, literaturas hinduístas, meu contato com os ‘Hare Krishnas’, meus encontros na Self-Realization Fellowship, minhas andanças e lições de meditações por templos budistas, até mesmo na Tailândia, foi a exatamente há dois anos, que eu encontrei a graça interior, a confiança para prosseguir no caminho espiritual, sentindo a guiança da minha Divindade Interior, do meu Ishta Devata: meu Mestre Shiva. Desde aquele dia, tenho tido experiências reveladoras com mais outras manifestações do divino e da divina, projeções, insights, momentos de expansão da consciência, mergulhando em universos, me conectando profundamente e intimamente com as Deusas e descobrindo habilidades que não pensava ser possível vivenciar nesse plano. E num processo de investigação interior junto ao meu Ishta Devata do qual nunca em minha vida achei que seria capaz, por outrora, ter deixado o medo reinar por um longo período em minha vida. Obviamente, não foi e não é um processo somente de leveza e mensagens transcendentais, em muitos momentos percebo a minha vulnerabilidade e inconstâncias, mas a diferença é que hoje, sinto verdadeiramente uma força palpável, que não me deixa sucumbir.

Depois de ter estudado um pouco mais, entendi que naquele dia, foi o meu primeiro encontro com a Mãe Divina e suas Shaktis (no momento das transformações e curas, vestidas de verde e floresta), que foram e são guias para mim. Esses inúmeros poderes no mundo exterior da natureza e no mundo interior da psique. Lendo e praticando (ainda embrionária prática) o Tantra Interior, pude compreender essa energia (Shakti) universal necessária, para que ocorram mudanças profundas em nosso ser.

A Deusa contém todas as forças, tanto da Natureza (Prakriti), como do espírito (Brahman), tanto do mundo da criação no tempo e no espaço como do Absoluto além de toda manifestação. Mais adiante, voltaremos a falar um pouco mais sobre a Deusa (Shaktis).

O grande guru do Yoga, Patanjali, afirma nos Yoga Sutras, um dos principais textos do yoga clássico, que a “visão do Ishta Devata” resulta na prática de Svadhyaya ou “estudo de si mesmo”. (Yoga Sutras II. 44.). Nesse sentido, Svadhyaya não significa apenas estudo de si mesmo no sentido geral, como costuma ser traduzido, mas na verdade, significa seguir as práticas que são específicas, para a nossa natureza única e temperamento individual.

A visão do Ishta Devata surge do estudo da Divindade inerente dentro de nós, nosso próprio Deus ou Deusa Interior que é a nossa natureza mais profunda.
Patanjali também dá ênfase a Ishvara Pranidhana, ou “render-se ao Divino dentro de nós”, como um componente essencial da prática do Yoga e Samadhi, que ele menciona várias vezes nos Yoga Sutras (Yoga Sutras I.23, II.1, II.32, II.45.). A veneração do Ishta Devata é um meio importante de se conectar com Ishvara, que não é apenas Deus no sentido abstrato e impessoal, mas assume formas específicas para nos ensinar e orientar. O Ishta é a nossa ligação pessoal com Ishvara.

A tradição do Yoga provê muitos Ishtas ou deidades pessoais como opção, começando com os cinco principais Devatas hindus de Shiva, Vishnu, Devi (Deusa), Ganesha e Surya (o Sol). Ás vezes Buda é acrescentado como o sexto. Vishnu vem como Rama e Krishna e outros avatares; Surya vem como outras divindades planetárias. Devi vem nas diferentes formas da Deusa como Kali, Durga, Lakshmi e Saraswati. Shiva tem muitas formas, desde o juvenil Dakshinamurti, passando por Yogeshvara, até o senhor do yoga,

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até Nataraja, o dançarino cósmico. Ás vezes as Divindades Védicas como Indra, Agni e Soma formam uma outra ainda.
Entretanto, qualquer poder divino, princípio ou representação de qualquer tradição iluminada pode tornar-se Ishta Devata, ou a forma pessoal da divindade. Em geral, os Ishtas são formulações do divino em termos de uma relação pessoal como pai ou mãe, irmão, irmã, amigo, amado, amada, guru ou mestre. As formas que eles assumem geralmente se desenvolvem a partir desses relacionamentos.

O Ishta Devata geralmente reflete as nossas próprias inclinações, temperamento, tendências e maneira de expressão. Ishta significa “nossa escolha” e, portanto, o Ishta não deve ser imposto a nós por outra pessoa, um grupo, ou uma instituição. Nesse aspecto, o Ishta é um fenômeno muito democrático. Deveríamos ser livres para venerar o Divino/a Divina sob qualquer forma apreciada por nós, assim como deveríamos ser livres para viver onde queremos, ter o trabalho que gostamos. Não existe apenas um Ishta Devata ou divindade pessoal para todas as pessoas, assim como não há apenas um tipo de alimento ou vestuário para todos. O Ishta Devata provê um fluxo constante de graça para orientar a nossa prática espiritual. Ele forma o elo tanto com o Divino em nosso interior quanto com o poder da natureza à nossa volta.

De forma geral, as Divindades do pensamento clássico hindu (conforme articulado no Mahabharata, Ramayana, Puranas e Tantras), são articuladas de uma maneira teísta, ressaltando Deus ou o Senhor Cósmico, Ishvara como o Ser Supremo operando por trás do universo e suas leis. Ishvara é o Criador (Brahma), Preservador (Vishnu) e Destruidor (Shiva) do Universo inteiro, como também o guru original do caminho yogue, de acordo com o Yoga Sutras: “Ele (Ishvara) [e o guru até mesmo dos antigos gurus, à medida que não é limitado pelo tempo”. Yoga Sutras I.26. Ele é o guia divino com o qual podemos nos comunicar intimamente e com o qual podemos nos unificar em nosso próprio coração.

Entretanto, entre o teísmo hindu e o teísmo religioso ocidental, pelo menos em suas formas dominantes, existem duas diferenças primordiais.
Em primeiro lugar, Ishvara opera por meio da lei do karma e do renascimento e não fornece apenas uma vida para a alma. Em segundo lugar, Ishvara tem muitos nomes, formas e funções e pode ser referido como masculino e feminino, aparecendo através de inúmeros grandes avatares e sábios. O Deus Único dos Vedas não se opõe aos muitos Deuses e Deusas, que são apenas suas diferentes manifestações em diversos níveis e com diferentes qualidades.

Todavia, o pensamento hindu não termina com o teísmo, por mais exaltado que este possa ser. O criador cósmico ou Deus com qualidades (Saguna Brahma), é uma manifestação do Brahman sem forma, a divindade além da criação, ou Deus sem Qualidades (Nirguna Brahma). O Universo manifesto não passa de ondas da superfície da realidade maior de Brahman que, em si mesma, nunca sofre nenhuma mudança. No Brahman Supremo, tudo se torna Uno, incluindo Deus, a alma e o mundo.

Nossa própria alma ou Eu Interior também tem esses dois mesmos aspectos, com e sem qualidades. A alma individual, ou a entidade que reencarna, está conectada ao Criador ou Ishvara e consiste em uma fração de sua energia. Ela nasce para ajudar a realizar a vontade divina na criação. Mas nosso Eu mais profundo está além de todo nascimento

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e morte, e é uno com o Supremo Eu (Paramatman) e com Brahma, o Absoluto ainda não nascido.
Esses dois aspectos do eu e da Divindade, com e sem qualidades, estão conectados. A meta mais elevada do Yoga é a realização do Supremo Eu ou Brahma. Mas ele age por meio da ajuda, da graça e da orientação de Ishvara ou Deus, especialmente na forma de vários Ishta Devatas, ou Deuses e Deusas.

Ishvara tem três formas ou manifestações básicas em um nível cósmico, de acordo com a grande “trindade” (Trimurti) hindu: Brahma, o Criador, Vishnu, o Preservador e Shiva, o Destruidor ou Transformador. Estes não são três deuses separados, mas os três aspectos de Ishvara. Desses três aspectos de Ishvara, vamos abordar nesse singelo estudo, os aspectos de Shiva (assim como também da Shakti), visto as experiências, pesquisas, vivências inerentes ao meu caminhar até agora.

Bhakti Yoga

O Yoga do Relacionamento com o Divino

Bhakti Yoga é o yoga do relacionamento com o Divino, com o Devata interno. É provavelmente o aspecto mais importante do Yoga da Divindade. O Bhakti Yoga requer que o nosso relacionamento mais fundamental seja mantido não com as outras pessoas (externamente), mas com o Divino (internamente). Isso geralmente resulta numa “atitude emocional” ou Bhava em relação ao Divino como pai, mãe, amor, amigo ou mestre, usando uma forma particular.

O Yoga da Divindade é um “Yoga de relacionamento interior”, no qual a Divindade se torna o foco primordial da nossa atenção. Aprendemos a nos relacionar com a Divindade como se fosse outra pessoa. Esforçamo-nos para nos relacionar com a Divindade por toda a vida, vendo a face da Divindade no céu, sua forma nas montanhas e sua energia no movimento do vento ou da água. Por meio do poder da devoção podemos comungar com a consciência de todos os seres e toda a existência como se fosse a nossa própria. Todavia, esse Yoga do relacionamento, pode ser trazido aos nossos relacionamentos humanos também. Ele é a base do velho ditado védico de tratar o próprio pai, mãe, guru e hóspedes como Deus. Isso não é uma negação dos relacionamentos humanos, mas provê a base para a sua espiritualização.

Shiva como uma Divindade

Suas formas contraditórias

Podemos dizer que Shiva, é a personificação do Supremo Criador Brahman – o Absoluto impessoal sem forma refletido em uma forma e simbolismo pessoal. Em um nível mais elevado, Shiva representa a pura consciência transcendente, a pura existência e a paz imutável – inerentemente além, sem conexão com nada no domínio de tempo e espaço, nascimento e morte. Ele está além de todas as dualidades, incluindo o bem e o mal, e está presente no sofrimento e na alegria.

Como Shiva está além de todos os conceitos, Ele é geralmente retratado de maneira imprevisível e paradoxal. Ele é um grande asceta e, contudo, é também, o Deus Superior do amor. Ele é o Deus da cura, mas também pode causar grande dor para que essa cura aconteça. Ele é o portador da paz, mas também gera o caos da transformação. Ele tem

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a luz mais pura, mas não recua diante da escuridão. Ele exige a rendição de nossa mente e ego limitados ao Absoluto.
O espaço, o tempo, e tudo no espaço e no tempo são manifestações suas e, assim, não se separam Dele. Assim, Ele é Pai e Mãe do Universo. Toda forma é sua forma, e ele pode ser invocado sob qualquer forma. Assim como o nome do Sri Vishnu significa que o Senhor é onipresente; o nome de Brahma significa aquele que é infinito e abrangente; o nome Rudra Shiva significa aquele que é a causa de lágrimas, no sentido de causar ações para produzir frutos; e também aquele que remove todas as lágrimas. Em qualquer um dos nomes e das formas de adoração, é possível invocar Maheshwara como aquele que causa a criação, a manutenção e a destruição.

O que deve ser lembrado é que as formas dos Deuses não são apenas caprichos, mas servem também para revelar as diversas facetas da verdade que não são perceptíveis aos cinco sentidos.
As Divindades também estão dentro de nós, e é devido a essa existência que os menores movimentos de nossos corpos e nossos reflexos são implementados. Os Devatas podem curar tanto o corpo como a alma. Toda a filosofia, toda a arte, e até mesmo todo o conhecimento cientifico, estão inerentemente intrínsecos no conhecimento desses deuses e deusas, que formam as partículas de energia do campo espiritual que era do conhecimento dos videntes antigos.

O grande sábio Vyasa, por exemplo, escreveu todos os 18 Puranas, e em cada um deles ele louvou determinada Divindade Suprema. No Bhagavata Purana e Bhagavad Gita, Krishna é o Supremo encarnado. Já no Devi Purana, a Deusa é o Supremo encarnado. No Shiva Purana, o Shiva é o Supremo. Assim, podemos perceber o Supremo, por não ter forma, é capaz de assumir qualquer uma, e qualquer uma delas pode nos levar a verdade definitiva. Somente aos descobrirmos esses deuses e deusas dentro de nós mesmos, seremos capazes de ver essa tessitura do Universo como uma tapeçaria divina, em que é tecida a constelação da vida.

A grandiosa galáxia de deuses desconcertantes do panteão hindu, Lord Shiva se destaca como um dos mais antigos e amados.
Ele é tão antigo quanto a cultura indiana, talvez até mais velho. No momento do despertar cósmico, antes da criação do homem, ele apareceu como o arqueiro divino, apontando a sua seta para o Absoluto não revelado. O mundo é o seu local de caça. O Universo ressoa com a sua presença. Ele é som e eco. É vibração intangível e também substância infinitesimal. Ele é o farfalhar das folhas gastas e o verde brilhoso da grama recém-nascida. É o condutor, que nos leva da vida a morte, mas também é o libertador da morte para a imortalidade. Ele tem rostos inumeráveis e 11 formas, descritas nos Vedas.

O céu e as estações vibram com a sua intensidade e o seu poder. Ele agarra, apoia, solta e libera. Sua majestade divina e poder são ilustrados com descrições simbólicas, mas altamente realistas de uma figura que inspira assombro, destruição, remota e fria em sua firmeza longínqua no Himalaia, e também se manifesta como uma força próxima, gentil, amorosa, vibrante e até divertida.

Ele era adorado como o xamã divino por tribos selvagens que percorriam o subcontinente antes do alvorecer da história. Eles o contatavam pelo uso de certos compostos psicoativos e diversos rituais esotéricos. Mais tarde, nós o vemos nos selos de terracota da civilização do Indo. Ali, ele é mostrado como Pasupati, Senhor das Feras,

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cercado pelas criaturas selvagens da floresta. Ele também é apresentado como o yogue sentado em várias posturas meditativas. Os Rishis dos Vedas olhavam para os Himalaias e viam neles seu cabelo; eles encontravam a sua respiração no ar, e toda a criação e destruição em sua dança – a Thandava Nritta. O Rig Veda, o texto religioso mais antigo conhecido da humanidade, refere-se a ele como Rudra, o selvagem, que vivia em locais assustadores e lançava flechas de doença. Sacrifícios eram oferecidos constantemente para acalmá-lo.

Naquela época, a religião era dominada por divindades femininas, portanto, o culto a Shiva logo foi fundido com o da grande Deusa Mãe Shakti, que, mais tarde, passou a ser conhecida como Durga, Kali, Uma, Parvati e assim por diante. Homens e mulheres são apenas partes complementares da verdade completa, e algumas imagens mostram Shiva como Ardhanarishvara, uma forma meio masculina e meio feminina.

Suas formas, atributos, decorações, armas, participantes e atividades são dados em grande detalhe para que ele se torne uma realidade viva. Como Rudra, é cheio de ira e de destruição. Rudra é a forma irada de Shiva. Essa destruição simboliza o encerramento de um ciclo, para a criação/o início do ciclo seguinte.

Rudra é vermelho de raiva, ou branco, ou branco acinzentado, porque o seu corpo está manchado de cinzas. Embora a pele de Shiva seja azul-cânfora ou vermelha em outras manifestações, Braddha Rudra deve aparecer na meditação como uma Divindade da cor das cinzas. Na mão direita ele segura um tridente (trishula), é com essa arma que ele destrói a ignorância humana. E na mão esquerda, um damaru (tambor), que representa o som do Universo. Ele não é mostrado nessa forma, concedendo destemor ou bênçãos, mas meditar nessa energia/representação de Rudra Shiva, afasta o medo e diminui a raiva.

Mas como Ishana Shiva, ele é completamente afastado do mundo. Ele é sempre juvenil. Ele é azul-cânfora e cheio de auspícios. O Ganga (o Rio Sagrado Ganges, na Índia), que flui a partir do topo do coque dos seus cabelos, é uma corrente refrescante e purificadora de autoconhecimento.

Shiva tem duas naturezas – uma selvagem e feroz; a outra, calma e pacífica. Ele também é o amigo dos desafortunados, dos duendes e dos espectros. Aqueles que são humilhados por outros encontram um lugar em seu séquito.
Serpentes, a quem as pessoas costumam temer e das quais fogem aterrorizadas, enrolam-se amorosamente em seu pescoço; arquetipicamente, as cobras enroladas em seu corpo são as ilusões, que ele domou.

Seus companheiros são os deformados e considerados seres excluídos. Shiva não tem aversão a ninguém, ele não pertence exclusivamente aos deuses e aos sábios. Os não ortodoxos e sem casta, excluídos dos grupos tradicionais, viam nele o não conformista que buscou a verdade definitiva além do ritual, além da sociedade, além da matéria. Ele foi o primeiro tântrico e também o primeiro Siddha. As pessoas sem castas buscavam as suas bênçãos antes de iniciar seus rituais magísticos, suas feitiçarias e alquimias.

O mesmo código que nos deu o sistema de castas também nos deu a imagem de Shiva, o não conformista, que desafiou os códigos sociais e procurou uma verdade que estava além de todas as aparentes dualidades. Não existe nada nem nenhuma pessoa que possa ser considerada inaceitável para a sociedade. Shiva é um símbolo dessa universalidade toda abarcante da visão hindu da divindade, e por isso, até os Brâmanes (sacerdotes ortodoxos) foram obrigados a aceitá-lo dentro do espectro de suas crenças

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conservadoras. Quando os Upanishads foram escritos, Shiva tinha se tornado uma divindade da maior importância. Apesar de, inicialmente ser considerado inauspicioso e impuro, ele acabou sendo conhecido como Shiva, o auspicioso. Ele é o yogin supremo, que não se importa com as coisas materiais, sempre imerso na imensidão de sua felicidade divina. Tornou-se a inspiração para o teatro, a dança e drama, e era uma figura predileta para pintores e escultures

Como já vimos, na trindade hindu, (Trimurti), Brahma é o Criador; Vishnu, o Mantenedor; e Shiva, o Destruidor. A Trindade Divina, assim, confirma o ciclo de existência. Os intrigantes da escola Shaiva Siddhanta, no entanto, não aceitam Shiva como sendo apenas um da Trimurti. Para eles, ele é o Brâman Supremo a quem tanto Brahma quanto Vishnu oferecem reverência. Ele é chamado de Pati, ou Mestre, com as cinco importantes funções da divindade: criação, manutenção, destruição, mistério e graça. A alma humana é chamada pasu, ou criatura, que está ligada ao pasa, ou corda de amarração. Essa amarração consiste em três tipos de impurezas: a primeira é avidya, ou ignorância primordial. Em seguida vem karma mala, a amarração que vem de nossas ações. A última é maya mala, ou impureza causada por apego ao mundo de maya. Para eliminar as últimas duas impurezas, quatro tipos de abordagens são prescritos: o primeiro é o caminho do servo, ou dasa marga. Ele consiste em executar atos externos de adoração, como colher flores para o culto, limpar os recipientes usados no culto, varrer o templo e assim por diante. Esse caminho leva a salokya, o que significa que o devoto será guiado à morada de Shiva quando morrer e ali morará para sempre. O segundo caminho é o serviço intimo a Deus conduzindo rituais, tendo comunhão intima com ele, falar sobre ele, escrever sobre ele e assim por diante. Esse é chamado de satputra marga, ou o caminho do bom filho. Ele leva o devoto samipya, ou proximidade íntima com Deus. O terceiro caminho é o de sakhya marga, ou o caminho da amizade, e inclui adoração interna, como meditação e comunhão, o que leva a sarupya; nesse caminho, o devoto assume a forma da divindade no momento da morte. O último é jñana marga, ou o caminho da sabedoria; ao seguir esse caminho, o devoto alcança sayujya, ou união com Deus.

Como foi dito antes, essas disciplinas podem remover apenas as primeiras duas impurezas causadas por ação e apego ao mundo – karma mala e maya mala. A amarração da ignorância, ou avidya, pode ser removida apenas pela graça de Deus. Assim, Shiva é conhecido como Pasupati, ou o Senhor de todas as criaturas humanas ligadas por essas impurezas. Shiva aceita todos aqueles que são humilhados e rejeitados por outros. Ele é o regenerador e o reformador. Ele elimina a pompa com sua simplicidade e o puritanismo pelo seu desafio à ortodoxia. Ele é o destruidor do ego, que é o que prende o ser humano no oceano da vida e da morte. Também pode destruir o pesar, a dor e a tristeza. Embora pareça uma figura assustadora, é ele quem pode remover todas as influências amedrontadoras que ameaçam a nossa vida. Como o lótus, surgindo do lodo do lago, ainda assim é o símbolo da pureza, do mesmo modo que Shiva é o símbolo da pureza, apesar de se envolver com a impureza.

O pescoço de Shiva possui um tom mais azulado que o restante do corpo, por ter bebido veneno mortal para proteger o mundo dele, mantendo-o na garganta em vez de engoli- lo. Ele tem três olhos. O terceiro olho em sua testa o indica como o Senhor do Yoga. Esse olho interno distingue a verdade da ilusão e vence a luxúria. Ele é Chandrachuda (aquele que veste a Lua), pois usa a Lua crescente como enfeite em seus cabelos. Como o

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crescente e o minguante da Lua, ele está em sintonia com o subir e o descer do ritmo cósmico. A parte superior do seu corpo é coberta pela pele do antílope preto, o couro do elefante cobre a sua virilha e a pele de tigre é seu assento. Ao usar Kundala masculino (um brinco de homem) na orelha direita, e o Tatanka feminino (brinco de mulher) na esquerda, ele revela sua natureza andrógena. Usa uma guirlanda de crânios e carrega um crânio na mão como sua vasilha de mendicância, e costuma beber dela para mostrar a fragilidade da vida mortal. Ele também se adorna com contas de rudraksha, sementes de uma árvore estimada. Seu veículo é o touro Nandi, que representa força contida. O touro também representa dharma, ou retidão. Na mão direita, ele leva o antílope representando todas as criaturas sob sua proteção. O tridente, a sua arma, também representa a trindade. Ele também carrega consigo um cajado e uma corda – o pasa amarra todas as criaturas à mortalidade. Seus dois arcos são conhecidos como Pinaka e Ajagava. Ele é a fonte do som primeiro, Aum, e leva seu tambor, damaru, enquanto dança. O toque do tambor representa as vibrações da energia cósmica. É o mestre da música e toca rudravina, ou alaúde. Também leva um sino e está preparado para fazer sacrifícios imensos para a proteção do mundo.

A física moderna descreve a matéria como não passiva e inerte, mas como algo em constante dança e vibração. Os físicos falam da dança contínua das partículas subatômicas, e usam as palavras “dança da criação” e “dança da energia”. Quando observamos uma escultura de Shiva Nataraja, o Shiva dançarino, essa descrição dos físicos, forçosamente, vem à mente. O Nataraja é a personificação dessa dança cósmica. Técnicas fotográficas modernas puderam projetar os caminhos de partículas emanando a imagem de Shiva dançando. Essa imagem é o símbolo concreto do grande princípio que os videntes tentaram retratar – que a vida é uma interação rítmica de nascimento e morte, criação e destruição. Os cientistas mostraram isso em seus aceleradores de partículas. A dança cósmica de Shiva representa os giros intensos das partículas de energia (shakti). Seu damaru bate pelas Shaktis, bate pela Mãe Divina personificada por muitas deusas no panteão hindu, incluindo Durga, Kali e Parvati. A Mãe Divina: que é a encantadora, a força, a leveza e a fúria que nutre todos os seres.

Shiva e Shakti

Personificações dos Poderes do Yoga

Shiva e Shakti representam o Ser e a Energia da Pura Consciência além do tempo e do espaço, e o modo como podemos vivê-los como os dois lados da nossa natureza mais profunda. Com isso não pretendo dizer que outras divindades não possam ter esses papéis, mas que essas duas podem ser especialmente entendidas dessa maneira. Trabalhar com as energias universais de Shiva e Shakti é um dos principais caminhos do Yoga em todos os seus aspectos do conhecimento, da devoção ou de técnicas especiais do Yoga.

Shiva é Yogeshvara, o grande Senhor do Yoga. Shakti é a Shakti do Yoga, ou o poder do Yoga. Utilizando um enfoque junguiano, podemos dizer que Shiva e Shakti são os arquétipos do Yoga dentro de nós, o Yogin e a Yogini ideais. Ao despertar Shiva e Shakti, o Deus e a Deusa, o Yogin e a Yogini dentro de nós, podemos pôr em movimento todas as correntes dinâmicas do nosso crescimento e de nossa transformação interior,

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permitindo que as suas energias se elevem em espiral dentro de nós, ao longo de sua ascensão natural ao Infinito.
Shiva e Shakti não são meras forças inertes ou princípios abstratos, eles têm uma realidade pessoal para nós como o Pai Divino e a Mãe Divina. Esse é provavelmente o modo mais fácil de compreendê-los.

Shiva e Shakti podem aparecer para nós em formas pessoais e podemos nos comunicar intimamente com eles, como um outro ser. Podemos vê-los, falar com eles e sentir a sua energia e amor à nossa volta. Shiva e Shakti existem como potencial pessoal dentro de nós e como poderes cósmicos fora de nós. Podemos abordá-los em ambos os níveis, o pessoal e o impessoal, permeando todos os aspectos da existência, animada e inanimada.

Existe muito conhecimento yogue que chega até nós na forma de ensinamentos sobre Shiva e Shakti. Um dos mais importantes deles é que o poder yogue (Shakti) surge da paz interior (Shiva). Shiva simboliza a mente meditativa silenciosa e Shakti indica a energia criativa poderosa que flui dela. Shakti é o poder da paz interior que se torna um canal para que os poderes cósmicos do universo maior da consciência e do êxtase fluam para dentro de nós.

Unir Shiva e Shakti significa unir Shiva e Shakti dentro de nós mesmos, como a consciência (Shiva) e o poder (Shakti) do Yoga, e como todos os aspectos das dualidades da nossa natureza, desde o masculino e o feminino até o fogo e a água, a mente e a emoção, a atividade e a receptividade.

Umas das maneiras de fazer isso é visualizar o lado direito do nosso corpo como Shiva e o esquerdo como Shakti, como na forma de Ardhanarishvara (como já citado), que significa Deus é metade masculino e metade feminino, a forma de Shiva com Shakti sendo seu lado esquerdo.

Há muitos grandes ensinamentos relativos a Shiva e Shakti através dos Vedas, Upanishads, Puranas, Tantras e literatura yogue como Yoga Upanishads. Há muitas maneiras de trabalhar com suas forças por meio do ritual, da peregrinação, do mantra, do pranayama, do yantra e da meditação. Quase metade do bilhão de hindus no mundo cultua, basicamente, Shiva e Devi, complementando os outros que são especialmente devotos de Vishnu e Lakhsmi. O mais importante de tudo é que, uma vez estabelecida uma conexão com Shiva e Devi como divindades dentro de nós mesmos, eles se tornam nossos professores internos e podem nos orientar diretamente ao longo do nosso caminho espiritual. Aprendemos a perceber como atuam em toda a vida e na natureza. As Divindades acrescentam uma riqueza à prática do Yoga em termos tanto de conhecimento como de energia. E seus poderes não são distantes ou estranhos, eles permeiam tudo o que fazemos como as forças da vida.

Eles são inerentes no movimento de inspirar e expirar da respiração, no interagir da razão e da emoção na mente e na escalada da aspiração da alma e a descida da graça Divina. Precisamos apenas evocá-los com sinceridade e eles responderão de imediato.

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Shaktis/Devis As Deusas

OM Aim Hrim Krim

As Shaktis contêm todas as forças, tanto da natureza (Prakriti), como do espírito (Brahman), tanto no mundo da criação no tempo e no espaço como do Absoluto além de toda manifestação. Todos os poderes estão radicados em Parashakti, a “Shakti Suprema”, a energia da bem-aventurada consciência, Chidananda. É por meio da bem- aventurança que a consciência expressa a si mesma e dá origem a toda a criação. Esta não é apenas uma afirmação filosófica, mas algo que podemos sentir dentro de nós mesmos.

Parashakti tem muitos nomes e pode ser indicada por diferentes Deusas em suas formas transcendentes. Ela é venerada como Lalita (aquela que brinca), Rajarajeshvari (a rainha de todos os poderes predominantes), Tripura Sundari (a beleza dos três mundos), Kamakshi e Kamakhya (aquela que tem olhos adoráveis), mas também como Durga- Kali, Tara e Lakshmi. Todas as Deusas são as manifestações dessa energia cósmica, são as Shaktis de Parashakti.

Nossas vidas dependem inteiramente de Shakti, que nos concede vitalidade, sentimento e consciência, por meio dos quais colocamos em ação tanto nossas ações externas, como nossa prática espiritual interna. Shakti controla todas as manifestações, assim como a eletricidade permite que todos os utensílios elétricos funcionem. Ela governa os processos de nascimento e morte e o desenvolvimento do karma. Ela provê nossas almas de corpos, mentes e os mundos nos quais as vidas serão vividas. Tudo o que comemos, respiramos, percebemos, sentimos ou conhecemos consiste em alguma porção de sua energia, algum aspecto de seus processos dinâmicos que nos cercam de todo lado. Tudo o que buscamos adquirir para o sustento, a felicidade, o conhecimento ou o crescimento é parte dela e deriva dela. Shakti nos proporciona a capacidade de meditação e a percepção intuitiva distintiva por meio do qual podemos transcender tempo e espaço. O próprio Tantra significa, literalmente, um fio, um tecido ou uma rede, aludindo à rede ou Shakti que forma as linhas interiores de força que sustentam todas as coisas no Universo.

Para simplificar a compreensão desse breve estudo das Shaktis, (pois há muitas formas das Devis – dentro do Tântrismo – por exemplo, vamos abordar as Deusas da seguinte maneira:
Do mesmo modo como a trindade dos grandes Deuses, o pensamento hindu reconhece a primazia das três grandes deusas conectadas a eles (que seriam as suas consortes e/ou seus aspectos femininos): a Deusa Saraswati de Brahma (o Criador), a Deusa Lakshmi de Vishnu (o Preservador), e a Deusa Durga ou Kali de Shiva (Destruidor-Transformador).

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Sarasvatī

A Verdadeira Sabedoria

Saraswati é a deusa hindu da aprendizagem, sabedoria, música. Ela representa a qualidade de Rajas como o poder da criação. Ela também é conhecida como Bharati (eloquência), Shatarupa (existência), Vedamata (‘mãe dos Vedas ‘).
Saraswati aparece pela primeira vez no Rigveda e, em textos religiosos posteriores, ela é identificada como a inventora do sânscrito e, apropriadamente, dá a Ganesha os presentes de caneta e tintas.

Ela também é uma patrona das artes e ciências. Saraswati

também é adorada como a Deusa do aprendizado no jainismo e por alguns rituais

budistas.

O nome de Saraswati significa “elegante”, “fluente” e “aguado”, e isso é indicativo de seu status como um dos primeiros rios da fronteira ariana. O rio Saraswati (nome moderno: Sarsuti), assim como o rio Ganges, flui do Himalaia e é considerado uma fonte

sagrada de purificação, fertilidade e boa sorte para aqueles que se banham em suas águas. O rio sagrado, novamente como o Ganges, se transformou em uma divindade

personificada.

Na arte hindu, Saraswati é geralmente descrita como uma jovem graciosa de pele branca. Ela geralmente usa um sari branco (que simboliza pureza) que tem uma borda azul. Não se preocupando com bens mundanos, ela raramente usa jóias. Ela pode ter uma meia-lua na testa e se sentar em uma flor de lótus. Alternativamente, ela pode ser

mostrada dirigindo seu veículo (

vahana), seja um cisne ou um ganso. Frequentemente

representada na figura escultura nos templos, a deusa pode ser acompanhada pelo marido ou pelo pavão, seu assistente tradicional. Tal como acontece com muitas divindades hindus, Saraswati é frequentemente representada com quatro braços, cada um segurando um objeto simbólico. Nas mãos esquerdas ela pode carregar um manuscrito em folha de palmeira e um vaso de água ritual. Na parte superior direita, ela segura uma flor de lótus branca, enquanto a mão direita inferior normalmente realiza

varada mudra, o tradicional gesto de dar presentes do hinduísmo. Outro objeto

comumente visto nas mãos de Saraswati é o vina (instrumento de música clássica hindu)

que lembra seu presente musical para a humanidade.

Saraswati pode ser invocada para nos ajudar com os estudos, provas e novos aprendizados, para que se tenha sucesso, mas que também não basta termos conhecimentos se não o exercemos, por isso, a energia/simbologia invocada da deusa Saraswati é o comprometimento em tornar essa sabedoria útil, real e divina. Cada simbologia abrange a nossa busca no despertar yogue. Isso torna o entendimento e o desenvolvimento das divindades em nós, como um caminho inerente e potente para

nossa evolução dentro do yoga.

a

Use a sabedoria de Saraswati para orientar a sua energia de Rajas de acordo com os princípios dhármicos da inteligência cósmica. Para isso você

pode repetir o seu bija-mantra (mantra semente) Aim.

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Lakshmi

A Natureza Purificada do Ser

A Deusa Lakshmi é fortemente associada à riqueza material. Porém, ela representa muito mais que isso. Não apenas a riqueza material, mas a sorte, a saúde, a fertilidade e a riqueza mental, a riqueza interior. Ela representa Sattva como o poder do equilíbrio. Ela nasceu do Oceano de Leite. Para descobrir o néctar da imortalidade, devas e asuras juntaram-se para bater o Oceano de Leite. Pegaram uma montanha colocaram no meio do oceano. Amarraram uma cobra no meio e cada um deles puxou de um lado fazendo a cobra como corda para que, assim, a montanha batesse o oceano de leite. Começaram a bater e coisas lindas e maravilhosas surgiram desse oceano de leite, uma delas foi Lakṣmī que surgiu sentada em uma flor de lótus. Quando ela apareceu, os deuses ficaram encantados, os Gandarvas tocaram e cantaram em sua homenagem, enquanto

os Apsaras dançaram ao seu redor.

Ganga a seguiu, enquanto elefantes banhavam-na com água.

Nessa história, aqui escrita de forma resumida, que ilustra o seu nascimento, o Oceano

de Leite representa a mente purificada. Portanto Lakshmi é aquela que nasceu da mente

purificada, simbolizando, assim, as riquezas dessa mente limpa.

Existem outras formas conhecidas de Lakṣmī como por exemplo, Rajyalaksmi (que representa a vitória), Viryalaksmi (relacionada a força e coragem) e Adilaksmi (que está

associada à causa do Universo, aquela que sustenta o Universo).

Lakṣmī é reverenciada durante todo o ano, em diferentes festivais em cidades e vilas por toda a Índia. Mas o festival mais importante associado a ela é o Diwali (ou Deepavali), quando ela é invocada para trazer saúde e prosperidade para a casa de seus

devotos.

Junto a sua imagem, os elefantes que representam o poder, a força, a boa sorte e a alegria. A Deusa Lakshmi traz a boa sorte, a auspiciosidade, a prosperidade. Ela está

sentada no Lótus – está sentada no conhecimento.

As Deidades Femininas (Devatas ou Divindades) há muito tempo são louvadas, desde os Vedas. Lakshmi não é uma deidade védica, porém Ushas e Saraswati desde os Vedas são

cantadas e adoradas. A adoração das deidades femininas traz sempre implícito o reconhecimento das forças da natureza enquanto fertilidade e poder da criação. Em certo sentido, representam a Prakriti, o poder de criar, e a própria Terra, que nos provê com tudo o que necessitamos. Utilize a harmonia de Lakshmi para fortalecer a qualidade

Sattva dentro de você. Para isso você pode repetir o seu bija mantra Srim.

Kali-Durga

A Essência do Yoga Interior

Deusa Kali, assim chamada porque ela devora Kala (Tempo). Mãe Cósmica, a quintessência. Negra como as poderosas nuvens de tempestade. Ela representa Tamas enquanto força que conduz todas as coisas a um fim.
Kali é a principal Deusa do Yoga, o pano de fundo da Shakti do Yoga, o poder da ação yogue. Ela reflete o magnetismo interior que atrai nossa energia para dentro, a qual faz com que busquemos o eterno. Kali é o movimento elétrico da alma até a Divindade.

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Acredito que seja a Deusa mais temida e incompreendida entre todas as divindades e suas peculiaridades e representações tão impaquitantes aos olhos ocidentais, mergulhados em pré-conceitos estruturais. Com o seu colar de caveiras, o cutelo de cortar cabeça respingando sangue, presas e corpo escuro, é difícil para muitos, olhar para a sua forma. Kali recebe apelidos como feroz, terrível, cruel. Ela é associada aos poderes da morte e destruição.

Entretanto, essa aparência assustadora é apenas a face externa de Kali, como ela aparece para aqueles que não estão despertos em suas mentes e corações internos. Para aqueles em quem a Shakti do Yoga está desperta, Kali é compassiva na aparência e na ação. Ela é a forma universal da Deusa como Espaço Infinito e sua Energia Irresistível. As suas faces, olhos, ouvidos e mentes estão em toda a parte. A sua voz, braços e pernas se movem e agem em todos os planos da existência. Kali desafia a imagem estereotipada da Mãe Divina bondosa e amorosa e desperta nossos medos atávicos da morte e do desconhecido.

Se procurarmos conhecer seus símbolos (arquétipos), ultrapassando a dicotomia conceitual do bem e do mal, poderemos paulatinamente perceber toda a beleza, plenitude e grandiosidade de Kali como sendo a própria Mãe do Tempo, cuja eterna dança entre a vida e a morte nos leva da destruição para a regeneração. Ela é a morte do ego, que é o renascimento do Eu imortal dentro de nós. Uma vez compreendida sua força e seu poder transformador, Kali nos oferecerá a libertação de todos os medos, livrando-nos assim dos apegos e das ilusões.

Ela tem o poder da transmutação, reconectando-nos às nossas próprias raízes. Ela representa o processo de acalmar e silenciar a mente, que é a essência do yoga interior. Ela simboliza o estado de Nirodha, ou fusão, nos Yoga Sutras, nirvana ou dissolução no Budismo, e Brahma ou força vital fundida em si mesmo, o final da morte, no final do nascimento. Kali é a própria respiração de Brahman que ocorre sem respirar, sustentando todas as coisas silenciosamente dentro de si mesmo. Ela não é simplesmente a força da natureza ou Prakriti e seus três gunas, mas o poder penetrante do Supremo além de toda mudança e flutuação.

Por causa de sua conexão com Brahman, Kali, assim como Shiva, não são duas personalidades claramente definidas, mas personificações de princípios e poderes mais elevados. Eles não agem de maneira comum nem assumem aspectos comuns. Eles representam o impessoal em sua primeira manifestação em direção à personalidade. Eles rompem a personalidade em infinito. É por esse motivo que suas formas não se conformam a nenhuma regra, ordem ou padrões estereotipados. Eles personificam o transcendente que, do ponto de vista do manifesto ou mundo fenomenal, deve ser paradoxal, cataclísmico e transformador em seus efeitos.

Kala Shakti quer dizer “o poder do tempo”, que é personificado como a Deusa Kali. O poder do tempo é capacidade de criar, sustentar e destruir todas as coisas. Venerar Kali, em sua forma de Mãe Eterna (Durga) é ver o tempo que surge do Prana ou força de vida (Shiva). O aspecto amoroso do prana de Shiva faz Kali nos guiar de volta para a nossa fonte no eterno. O poder de Kali opera através do tempo de suas transformações, para nos levar além do tempo até o infinito. A força de Kali é uma energia poderosa que pode nos orientar em nossa jornada interior. Ela é a voz divina reverberando dentro de nós com um ímpeto indomável, que surge quando deixamos nosso pequeno eu desaparecer no segundo plano. Kali é o grande Prana, a força vital cósmica que é o sangue da vida do universo.

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Use o poder de Kali para remover a sombra de Tamas e sua inércia. Para isso você pode repetir o seu bija mantra Krim.

Conclusão

Uma jornada ao despertar

As experiências nos guiam. Nessa dialética de sombra e luz. De nossas tão perturbadoras contradições. Mas toda atividade vem de Prakriti: “Sem mim você não tem ações, qualidades ou atributos”. (Shiva – Histórias e Ensinamentos de Shiva Mahapurana). Mas não há dualidade. Materialidade e Consciência não se separam, e uma só existe pela outra. A Consciência Suprema se expressa em cada ser e encontra o seu deleite quanto mais plena for a sua existência. Nossas experimentações diárias, ações empíricas, nossos mergulhos internos. Sabendo que por conta dessa natureza mutante, a nossa caminhada, até mesmo e além do yoga, não acontecerá de forma tão bela e repleta de luz, como se a luz fosse um padrão igual para todos. Nesse espaço denso permeado pela cultura mercantilista, acreditamos na linearidade e torcemos sempre pelo sucesso a curto prazo, pela tão iluminada cabeça, não queremos nos deparar com a dificuldade, com o não saber, e mascaramos o que nos confronta. Porém, não precisa ser assim.

Que possamos viver plenamente em nossa verdade, e que saibamos que ela também não é absoluta. Que possamos nos desestabilizar, rever valores, descontruir as nossas relações com a gente mesmo e com o todo, reconhecer a nossa ira e nossos medos e transmutá-los em alegria e revelar o quão capaz somos. Não tem uma receita pronta para todos, cada ser é uma manifestação única do Divino e da Divina. Caminhar dentro do yoga deveria ser uma experimentação não a auto cobrança para se alcançar algo. É diferente para cada ser e acredito que não tem certo ou errado. Somos Consciência. Estamos aqui para experimentar a plenitude de nossas capacidades, e não há necessidade de nos oprimir ou julgar as nossas potências.

Nosso Eu Verdadeiro é uma Divindade, um Deus ou/e Deusa, o poder divino por trás de todo tempo, espaço e causação. Nós somos Deus. Deus é a nossa verdadeira natureza. Nós somos seres divinos com todos os poderes do universo dentro de nós. Todavia, essa divindade não é um princípio teológico ou crença religiosa, mas a própria natureza da existência que é autoconsciente, autodeterminante e autorresponsável. Esse Atman ou Eu é Brahman, o Absoluto Ser-Consciência-Êxtase.

Uma importante abordagem yogue, comum tanto ao Veda como ao Tantra, é considerar o nosso Eu verdadeiro como uma Divindade. Isto é honrar a presença divina dentro de nós mesmos – respeitar nosso próprio ser e consciência como sagrados, imortais e mutáveis. É entrar em contato com o Deus ou a Deusa dentro de nós e procurar alinhar a nossa consciência, motivação e comportamento segundo a nossa sabedoria e graça. Você é Shiva e Shakti. Você é Consciência e Manifestação, você é a própria natureza em constante evolução.

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Bibliografias:

Yoga Tântrico Interior – David Frawley

Shiva – Histórias e Ensinamentos do Shiva Mahapurana – Mataji Devi Vanamali

Kali – Mitologia, práticas secretas e rituais – Daniel Odier

Vijñanabhairavabhairava Tantra – Alexandre Vieira

Yoga Sutras de Patanjali – Traduzidos do Sânscrito e comentados por Carlos Eduardo G. Barbosa

Ganesha The Enchanter of the Three Worlds – Paul Martin-Dubost

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