A Batalha pela Vontade

Por Loïc Campos

Trabalho de Conclusão do Curso de “Formação em Yoga como suporte do Ayurveda 2020”.

Contexto e Agradecimento

     Esse texto foi escrito à princípio como trabalho de conclusão do curso “Formação em Yoga com o suporte do Ayurveda” que finalizei em 2020 na escola Sim Yoga, em São Paulo. Um curso belíssimo ministrado por minhas queridas professoras e também amigas, Simone Saavedra e Rita Camargo, que me passaram com muita dedicação, sabedoria e carinho os conhecimentos mágicos desses dois mundos tão enobrecedores. A essas duas mulheres dedico enorme agradecimento e reverência. Carrego em minha jornada seus ensinamentos, conselhos e exemplos.

     Para a criação desse trabalho, também reservo especial agradecimento ao professor Lucas Penna, meu professor do curso da Nova Acrópole em Perdizes, que me passou uma imagem bastante rica da história do Bhagavad Gita e de seu poderoso conteúdo, conhecimento esse que me tem tornado um ser melhor desde então, tanto no que se refere à minha jornada como estudante do universo, quanto à meu crescimento como estudante de mim mesmo. A simbiose que pude constatar entre as aulas da Nova Acrópole com ele e os meus estudos no Yoga junto às minhas professoras, me foi de preciosidade inestimável, ajudando-me a chegar aonde agora estou.

     Impossível de não mencionar também meu honrado respeito ao trabalho da professora Lucia Helena da Nova Acrópole, cujas palestras no youtube me serviram de grande inspiração tanto para o desenvolvimento desse trabalho quanto para minhas reflexões de vida.

     Também gostaria de acrescentar aqui uma saudosa reverência a todos os mestres e mestras do passado, que possibilitaram que esses conhecimentos tão belos chegassem hoje até mim, permitindo-me construir, com bastante Vontade, esse trabalho e a continuação do meu desenvolvimento interno como ser humano.

     E por fim, reservo essas últimas linhas para um caloroso agradecimento a você, que se dispõe a ler o que tenho para compartilhar. É profundo o desejo dentro de meu ser, para que as seguintes reflexões te ajudem na tua caminhada ruma à sabedoria, para que possamos construir um universo mais consciente, pleno e unido!

Uma ótima reflexão a todos e todas!

Loïc Campos

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A Batalha pela Vontade

     Quando a grande batalha estiver prestes a começar, as cornetas de guerra estarão posicionadas e os pulmões estarão cheios de ar, prontos para soprar o comando sem retorno. Os estandartes estarão flutuando ao vento, os aços reluzindo ao sol e as flechas nos arcos apontados. Quando enfim chegar o início tão aclamado da grande guerra, a mais importante de todas as guerras, nesse momento o mais nobre e valoroso guerreiro, dentre todos os nobres e valorosos guerreiros, será testado. E nesse momento de grande ápice, de grande triunfo, ocorrerá o temível acontecimento: ele perderá a vontade de lutar. O guerreiro irá largar o arco e a espada e cairá sem forças no chão. E nesse momento tudo estará perdido. E todos se perguntarão o que aconteceu.

     Assim começa o Bhagavad Gita.

     Mas, que fique bem claro. O conhecimento e a bravura desse guerreiro não podem ser questionados. No oficio das lutas ele é imbatível. Ele está no seu máximo, no seu auge. A arte de lidar com as armas e todos os tipos de instrumentos de guerra está mais firmado do que nunca em sua mente. Sua destreza no combate já foi testada cem mil vezes, e cem mil vezes aprovada. O domínio do próprio corpo é total e equilibrado. Sua lealdade para com seu reino e seu destino são inabaláveis. Seu senso de justiça jamais esteve tão afiado, firmado na mente como a rocha cristalizada na montanha.

     Seu corpo é forte e pronto para expressar o melhor de sua alma. Sua voz é tão potente que poderia comandar mais de mil gerações de bravos soldados e ferozes animais combatentes, que lhe seriam leais até o fim e além do fim. A sua alma está tão expandida e alinhada com o propósito do universo, que o próprio universo encaminhou o ser divino para se prostrar ao seu lado, para apoiá-lo na grande guerra universal. Os astros param para observá-lo em sua glória. A própria natureza se abre para que nenhuma de suas flechas se percam e nenhum de seus golpes erre o alvo. Todos os seus gestos e palavras são mensagens do compromisso divino.

     Porém, ainda assim. Ainda que firme no domínio da expressão do universo. Se no momento ápice da grande guerra lhe faltar a força que é a motriz de todo princípio, tudo será em vão. E nenhum treino, fórmula, arma, carruagem, divindade, forma criada ou imaginada, será capaz de levar até o fim o propósito e promessa que havia sido escrita na rocha. Se faltar a Vontade, a grande guerra que a princípio já estaria vencida sem ter que ser lutada, antes mesmo de começar, já estará perdida.

     Tal é o embate que se encontra Arjuna, o príncipe dos Pandavas, quando se vê prestes a avançar com seu exército, para combater seus inimigos que são também seus parentes e amigos. E ele cai em desesperança por estar envolvido em tamanho confronto. Esse é o início do livro Bhagavada Gita, um livro da cultura hindu, originalmente composto na forma de versos, pois a obra maior na qual ele está inserido, o Mahabarata, é escrito em versos e poesia. A Gita é um texto de grande sabedoria que fala sobre a guerra que todos os seres humanos devem travar dentro e fora de si. A guerra que chamarei aqui de “A batalha pela Vontade interior”. Pois quando o grande guerreiro Arjuna, ao fazer face ao terrível espetáculo que se prostra diante de seu carro de guerra, decide depositar suas armas e se lançar ao chão, isso significa que ele perdeu essa energia primordial da qual falaremos: A Vontade. E é a partir desse acontecimento, da queda de um grande guerreiro para a dúvida e o desânimo, que começa a discussão filosófica que é o cerne deste livro, onde o seu companheiro e cocheiro Krishna, que é a representação do divino interior e exterior, toma-o firmemente pelo braço e inicia seu discurso para trazê-lo de volta à verdade e para a batalha. Pois, antes de mais nada, a batalha da qual se fala não é qualquer uma. É a batalha que permeia a vida, a busca pelo aprimoramento, pela justiça que ordena cada coisa em seu devido lugar, a batalha pela Verdade e superação das ilusões do mundo.

     A proposta da reflexão que desenvolveremos a seguir é a de realizar um breve ensaio filosófico a respeito desse acontecimento, que marca o início desse poderoso livro: A perda da Vontade de Arjuna, o príncipe guerreiro. Essa perda que certamente é também a nossa própria quando, em tantos momentos ou fases da vida, a escuridão e a dúvida nos envolvem de tal maneira que nós nos vemos indispostos a cumprir nossas promessas, deveres e compromissos mais valiosos.

     O que significa esse acontecimento? O que é essa Vontade da qual se fala, e como fazemos para toma-la de volta em nosso poder? Tentaremos aqui discutir um pouco sobre essas questões e esse intrigante fenômeno que é o desaparecimento súbito dessa força dentro do ser humano, pois Arjuna certamente é a figura que retrata o ser humano dentro dessa história cheia de acontecimentos míticos e poéticos, mas que são tão reais quanto universais.

     É importante ressaltar que eu não possuo ainda uma formação em filosofia ou na interpretação dos textos antigos. Assim, aqui apresentarei apenas minhas ideias empíricas, unindo-as a meus estudos e minhas experiências pessoais. Essas vêm sobretudo: do campo das artes, que é onde de fato possuo formação acadêmica; do campo do voluntariado, onde tenho a oportunidade de trabalhar com pessoas que sofrem de depressão e perda total da vontade de viver; do caminho do yoga, que é para o qual trabalho cotidianamente e sirvo com admiração e respeito; e do caminho da vida, o qual trilho a passos lentos e cuidadosos, almejando alcançar no tempo certo as respostas certas. A filosofia faz parte de minha vida e existe nos quatro aspectos mencionados, portanto sinto que quando falo de tal assunto, profundamente filosófico e espiritual, é como se desenvolvesse uma conversa com um velho amigo que apesar de antigo, ainda é cheio de mistérios e enigmáticos sorrisos.

     Me proponho a discutir essa questão de forma filosófica porém, mais do que tudo, de forma prática. E não digo isso pois não acredito que a filosofia possa ser prática. Muito pelo contrário. A verdadeira filosofia busca sua verdade na mesma medida que dá os seus passos na dança com a vida, e o yoga e as artes seguem o mesmo princípio. Quando digo que esse assunto será tratado de forma prática quero dizer que à partir de agora assumo a responsabilidade de tratar esse assunto de forma pessoal, e gostaria que essas ideias pudessem ajudar as pessoas no campo de batalha do dia a dia da vida.

     “As minhas pernas tremem, os meus braços não me obedecem; a minha face está em agonia. A febre queima-me a pele; os pensamentos se confundem no meu cérebro; todo o meu corpo está em convulsões de horror; o arco cai das minhas mãos”[1]. Essa é uma das primeiras falas de Arjuna, quando ele vislumbra o que está prestes a acontecer. Quando ele enfim percebe o terror da guerra prestes a eclodir. Mas já foi dito que não é o medo ou a covardia que produzem tais efeitos em seu corpo, pois a sua própria alma foi atingida. A dúvida preenche o espaço onde algo muito maior deveria reinar.

     O fenômeno do desaparecimento da Vontade é algo que pode acontecer em qualquer momento e com qualquer um, tal é o primeiro ensinamento oculto na história. E esse fenômeno irá abalar profundamente a existência de qualquer indivíduo seja ele um guerreiro feroz ou uma criatura envergonhada. Por diversas vezes já senti esse fenômeno de perto, assombrando meus próprios passos. É ele quem dificulta a respiração, que faz a caneta titubear nos dedos, que segura os pés quando era a hora de avançar, que de manhã nos amarra na cama quando era hora de acordar, que procrastina nossos planos e sonhos quando era a hora de lança-los ao mundo.

     Quando se trabalha em uma ONG que atende pessoas com depressão e cuja maioria já tentou mais de uma vez o suicídio, existe uma pergunta inevitável que alguma hora surgirá na mente: Por quê? De onde vem essa perda interna tão grande que impede o ser de realizar o que deve ser realizado? Como chamar esse vazio inominável que aparenta só pode ser preenchido por algo inominável? Por quê a vontade acabou? De onde parte essa ideia de se acabar com a existência através da força que, em teoria seria a mesma força responsável por manter a própria existência? Estamos falando aqui mais uma vez do grande tema de nossa discussão: A Vontade. De onde vem a vontade de não se estar mais? De não existir? Ou será que nesse caso estaríamos falando de forças diferentes? A força que mantêm a união das coisas seria a mesma que as separa? O que se esconde por traz dos véus da separação e do sofrimento que permeiam e abalam tão profundamente a vida?

     A proposto do Yoga é e sempre será a de desmanchar os véus da vida, aqueles que nos fazem recuar quando deveríamos avançar, que nos fazem fechar os olhos quando deveríamos estar tentos, e que nos fazem dormir quando deveríamos despertar. Por isso o Bhagavad Gita fala sobre o Yoga e o Yoga fala sobre a guerra que deve ser travada, para que a Vontade permaneça viva até quando deva permanecer, até que o dever seja cumprido, a batalha vencida, e a verdade revelada. Enquanto estaremos refletindo sobre esse assunto, portanto, estaremos praticando Yoga. Em direção ao despertar.

     Então comecemos!

     A história contada nesse livro faz parte do gigantesco épico indiano chamado de Mahabarata, história essa que se acredita ter sido compilada entre 200 ac e 400 dc. Esse livro é composto por uma série de contos que pouco a pouco foram se fundindo com toda a mitologia indiana. Há inúmeras versões dessas mitologias tanto quanto há inúmeras versões de seres humanos no planeta, pois a maioria dessas histórias, de autoria desconhecida, foi por muito tempo transmitida na forma falada até ter sido finalmente compilada. E mesmo assim, ao que tudo indica, o que se tem hoje nesse compilado, é o que foi possível se reunir de forma a se obter uma linha de acontecimentos lógicos e contínuos. Mas a mitologia é difícil de ser organizada racionalmente e certamente muitas outras histórias ainda estão para ser encontradas.

     Entretanto, não há dúvidas, um dos capítulos que se destaca dentro do Mahabarata, e que compõe uma base de ensinamento que é respeitado em praticamente todas as linhas filosóficas e religiosas hindus, é aquele que narra o momento da história em que ocorreu um grande choque entre duas poderosas famílias, o que culminou na grande guerra. Essas duas famílias eram primas entre si, de um lado estavam os Kuravas, e de outro os Pandavas. O Mahabarata descreve embates anteriores, diversas aventuras e tentativas que foram feitas na esperança de se promover uma conciliação entre as duas partes. Porém, após tantos fracassos, enfim o ultimo caminho restou: o da espada e de lança. Assim esses primos lutariam até a morte pelo direito de governar a cidade de Hastinapura, cidade essa que era de direito para ambos os lados, pois os pais das duas famílias eram irmãos. O pai dos Pandavas havia morrido a muito tempo atrás, deixando a cargo de seu irmão, pai dos Kuravas e governante provisório do reino, o cuidado dos filhos. Mas esse tio e rei era cego e estava prestes a passar o governo adiante.

     E nessa passagem de trono veio o inevitável embate, pois os Pandavas; de origem e coração mais nobre; haviam sido escolhidos para receber a responsabilidade do trono, o que nada agradou aos Kuravas. A guerra chegou, e no momento de início da; quando os dois exércitos faziam face; Arjuna, o general e grande herói dos Pandavas, entra na profunda dúvida imobilizadora, que dá origem à sua conversa com a sabedoria divina de seu amigo e mestre Krishna. E assim se inicia a Sublime Canção, a Bhagavad Gita. Pois o que Krishna irá revelar nesse momento para o príncipe caído será a Verdade à respeito do funcionamento da existência de tudo que existe no mundo visível e invisível do universo. Tal é o objetivo desse livro.

     Comecemos então a nossa reflexão compreendendo um pouco mais sobre esse livro tão profundo e de proposito tão ousado, o qual, por questão prática, chamaremos a partir de agora de Gita. Certamente para todos aqueles que já leram esse livro, reconhecerão que se trata de uma obra para além de seu tempo. Nesse sentido, não pretendo entrar no mérito devocional e também religioso que poderá ser reconhecido no texto, apesar da beleza e riqueza imensa que tais aspectos também carregam. Aqui focaremos nossa atenção no lado esotérico da obra, os ensinamentos que conversam com o interior humano e que não pertencem nem ao tempo, nem à cultura, nem à religião e nem aos costumes ou contextos históricos. Tais ensinamentos são herança unicamente da eternidade. Esse livro fala sobre a humanidade e a maior batalha que ocorre dentro do ser humano eterno para além do corpo físico. A batalha para se conquistar a vitória sobre si mesmo, independente das circunstâncias. E essa vitória envolve o desenvolvimento de uma consciência profunda a respeito do nosso próprio papel dentro da lei do cosmos.

     Não há dúvidas de que até hoje poucos foram os seres humanos capazes de vencer essa guerra. E ainda que a tenham vencido uma vez, em menor número estão aqueles que foram capazes de manter a vitória por muito tempo. É como se diz na passagem de um outro pequeno grande livro, que apesar de ter uma origem geográfica e temporal distante do Gita, conversa de forma bela com ele: “Outra e outra vez a batalha precisa ser travada e ganha. É só por um intervalo que a natureza pode permanecer tranquila.” Tal é um dos versos que compõe o belíssimo livro Teosófico, de Mabel Collins, Luz no Caminho e que retrata perfeitamente essa primeira verdade sobre a existência. A batalha precisa ser travada sempre. Ou seja, a Vontade deve ser constantemente cultivada, pois um dos primeiros aspectos sobre sua natureza é justamente esse: a necessidade de Constância. Pois só ela poderá combater a Inconstância.

     O ser humano cotidianamente estende os braços para agarrar e aperfeiçoar os instrumentos à sua volta, mas raramente mergulha nas profundezas de si mesmo para manejar os instrumentos internos de sua alma. A transmutação interna ainda é um segredo único que poucos conhecem. Ela é e foi o foco de estudo da Alquimia, do Hermetismo, do Yoga, das práticas secretas do Tibete, do Tai Chi Chuan e outras atitudes espirituais de sabedoria além do tempo e das circunstâncias. Felizmente algumas obras audaciosas se propuseram a abrir essa busca para a humanidade e conversar sobre esse segredo imperativo e valioso, e seus ensinamentos merecem respeito e profunda atenção independente da cultura à qual pertencem. Essas obras conversam com a alma, e a alma não tem preferência por qualquer tipo de veste ou doutrina, apesar de muitos desses livros terem surgido sob mantos específicos. E o Gita é certamente um desses livros que conversam com a alma.     

     Há estudos arqueológicos que por muito tempo apontaram o Mahabarata como sendo um documento que, em entrelinhas, descreveria a ocupação da Índia pelos povos exteriores, e do embate bélico desses povos com aqueles que habitavam o local. Assim, Hastinapura, teria sido uma cidade milenar encoberta pelas areias do tempo. Ao mesmo tempo outros estudos mais recentes reclamam que esse passado belicoso ainda não foi totalmente comprovado e muitas evidências arqueológicas apontam para uma miscigenação mais pacífica e sutil da cultura e personalidade desses povos. Mas essa discussão não é a nossa. A história possuirá sempre suas meias verdades e apenas o Tempo saberá a grande Verdade.

     Ainda assim, muitos poderão se perguntar se acaso esse é um livro que fala de acontecimentos históricos ou míticos? Portanto, fala sobre uma guerra que realmente existiu e foi travada entre dois povos ou é um mito? Para responder a essa pergunta irei me apoiar em uma sabia reflexão que se atribui a uma estudiosa profunda dos textos antigos. Por infelicidade das circunstancias, ela teve parte de sua grandiosidade obscurecida pelos interesses da história. Porém sua belíssima obra perdurou. Seu nome é Helena Blavatsky e a sua frase diz aproximadamente assim: “Toda obra da humanidade que for realmente grandiosa e de porte considerável, falará sempre de acontecimentos que são ao mesmo tempo históricos, míticos e místico”.

     Portanto, obras como essas, abrangerão sim fatos verídicos, e portanto conversarão com o aspecto físico e histórico da humanidade. Ao mesmo tempo elas falarão de fatos míticos, simbólicos e que necessitarão ser interpretados para serem compreendidos e assimilados em profundidade pelo aspecto mental da humanidade. E por último, esses livros falarão também de acontecimentos místicos, ou seja, exemplos morais universais a serem seguidos e assimilados pelo aspecto espiritual do ser humano[2], a fim de se conquistar uma existência plena além das ilusões da vida. E não resta dúvidas de que o Gita é uma dessas obras, com tamanho porte, que permitiu que seus ensinamentos perdurassem dentro da história, mente e espirito da humanidade por tanto tempo. Tendo em mente a frase de Blavatski seguiremos nossa reflexão.

     Em uma de suas primeiras falas no livro, logo após Arjuna ter exposto sua aflição e desanimo, o seu amigo Krishna se prostra diante dele e inicia uma de suas primeiras falas no Gita. Ele diz assim: “Sabe, ó príncipe de Pându, que nunca houve tempo em que não existíssemos eu ou tu, ou qualquer destes príncipes da terra; igualmente, nunca virá tempo em que algum de nós deixe de existir”[3]. Nessa fala já é lançado o conceito primordial para que toda a conversa seguinte seja possível: no universo nada se cria e nada se perde, tudo se transforma. O Todo jamais pode deixar de existir, portanto a morte, a inexistência, é a primeira das ilusões que deve ser rompida. Em outras esferas tudo irá continuar existindo e ocupando seu lugar.

     No entanto, Krishna continua: “Se porém, não crês, e pensas que nascimento e morte são coisas reais, mesmo assim te pergunto: Por que lamentas e entristeces? Pois, em verdade, a morte deriva do nascimento, e o nascimento dimana da morte. Não te aflijas, pois, pelo inevitável”[4]. Nessa passagem Krishna aceita abraçar momentaneamente a ideia da semi-verdade da morte e explica que ainda assim, que a ideia de continuidade não seja aceita, não há motivos para se lamentar, pois a natureza das coisas é coerente e coesa. Há uma frase bastante intrigante que se atribui a Buda, que acredito que poderá enriquecer ainda mais a reflexão, e que fala a seguinte ideia: “O oposto da morte não é a vida. Assim como a vida não é o oposto da morte. O oposto da morte é o nascimento”. Então, se compreendermos que a Vida não faz parte dessa relação de opostos morte-nascimento, só restará uma conclusão: a Vida não tenha oposto. A Vida deve se localizar em algum lugar compreendido por perto e ao redor desse ciclo morte-nascimento. Assim, se nós nos propusermos a falar de um ciclo da vida, ainda que não se acredite em um mundo imaterial ou reencarnação, a vida precisará existir nas duas voltas do ciclo para que o ciclo possa ser verdadeiro. A Vida não pode ser posse exclusiva nem da morte e nem do nascimento, nem da guerra e nem da paz, nem da matéria e nem do espírito. A Vida permeia tudo.

     Outro ponto importante de se refletir, é o da ideia da guerra e de morte. Pois o oriente e ocidente tem formas bem diversas de enxergar esses dois conceitos, esotericamente falando. Para o ocidente a guerra é sinônimo de destruição, violência e jogo de interesses materiais. E a morte representa o desaparecimento, a inexistência de todas as coisas. No entanto, para o Ocidente a guerra tem como representação simbólica o atrito, a relação e reorganização das coisas. Enquanto que a morte significa subordinação e dissolução em um campo, para se promover a libertação em outro[5]. Tal é o aspecto místico do livro, e no qual nos basearemos para buscar a verdade sobre a guerra pela Vontade. Pois algo deverá ser reorganizado, assimilado, subordinado, para que a Vontade seja reconquistada e liberta.

     Entendendo isso, logo se perceberá que, além de uma guerra por direitos, a guerra que ocorre no Gita é aquela para se colocar cada coisa no seu devido lugar. Pois os Pandavas, em menor número seriam os representantes das atitudes mais elevadas do ser humano, seu lado moral, espiritual, e o compromisso com a eternidade e com a Vida atemporal. Enquanto que os Kuravas, de origem mais densa, filhos de um pai cego, seriam os representantes da matéria, do corpo sensorial, dos compromissos com as relações mundanas e experimentações da vida na terra. Hastinapura é o território a ser dividido de forma justa entre esses dois lados, é o centro no qual ambas as partes devem se relacionar e dividir o controle.

     Continua a dizer Krishna: “Quem é firme na prática da Reta Ação e, ao mesmo tempo, domina a si mesmo, subjugando à Vontade Divina os seus sentidos e desejos, sente-se uno com tudo o que existe e não é influenciado pelas obras que pratica. Ele conhece a Vida Universal e o que dela procede, e sabe que não é ele, como espírito, quem age, mas é a sua natureza que vê, cheira, sente, come, caminha e respira. Em verdade pode ele dizer: Os sentidos fazem a sua parte no mundo sensual; deixemo-lo agora, eu não sou vinculado nem iludido por eles, porque sei qual é o seu fim.

     Quem encara suas ações como obra dos sentidos, e as executa sem apego, não é maculado pelo egoísmo, tal qual a flor de lótus, que não é poluída pelas águas que a rodeiam”[6].

     Ao corpo cabe o mundo e a matéria, e ao espírito cabe a eternidade. Ambos devem compartilhar a cidade sagrada que é o símbolo da expressão do ser na existência, ambos são necessários para se obter uma harmonia perfeita, para se produzir a sonoridade da vida, a música da existência. Pois qual dos elementos seria o mais importante para se fazer a música? O instrumento ou o ar? O primeiro, que canaliza de forma perfeita a passagem do ar, ou o segundo, que sopra com força e determinação através do instrumento? 

     O problema advém quando a matéria densa exige o domínio total da Vida, sobrepujando o espírito e o sopro divino. E isso equivale a se gerar um instrumento sem espaços internos onde o ar possa circular, onde o aspecto divino e eterno possa se manifestar, e portanto, onde a música possa acontecer. Nesse momento a guerra advém como o princípio natural de reordenação das coisas, e a morte será a representante da assimilação e libertação da música. Dessa forma, matar os Kuravas, é o ato de assimilá-los, domar as paixões e impulsos e coloca-los de volta em seu lugar devido.

     Dito isso, lancemos nossa atenção para a grande Questão que é o cerne oculto do livro: Que Vontade é essa que Krishna deve resgatar dentro de Arjuna, para que a batalha possa prosseguir, e os Kuravas sejam devidamente combatidos e assimilados?

     A Vontade é uma personagem conhecida por todos nós, pois é ela quem nos move. E facilmente reconhecemos quando ela não está mais. Quando isso acontece, há alguns que tentarão resolver temporariamente o problema com uma dose de café. Outros com um banho gelado pela manhã. Outros com um bom livro inspirador, uma música sincera, uma prática de yoga revigorante. Cada um aplica cotidianamente suas técnicas para conseguir se levantar e fazer o que deve ser feito todo dia. Mas o que se irá perceber, é que algumas vezes, mesmo as tentativas mais profundas e vigorosas continuarão sendo apenas temporárias caso a verdadeira fonte não for alcançada. E o problema irá persistir. Pois nada disso de nada adiantará caso a conversa sincera não for travada com o Krishna interior. Pois sobre esse grande trono vazio apenas a Vontade verdadeira pode reinar, e Essa da qual se fala não é qualquer vontade. O esvaziamento tão comum das palavras e conceitos não deve nos iludir. Pois essa Vontade está acima dos desejos comuns e não pode ser tocada pelas atitudes materiais, mesmo as mais elevadas. Talvez o conceito atual que temos e que seja mais próximo dessa vontade verdadeira seja a Força de Vontade. Assim, devemos resolver o primeiro problema. O que é essa Força da qual falamos? Quando refletimos sobre o conceito de Vontade, é preciso deixar logo claro a diferença entre essa palavra e muitas outras semelhantes que podem nos vir em mente.

     Vontade não é sinônimo de impulso. Pois o impulso é cru e inerte por si só, fadado a terminar, porque é intimamente dependente das leis físicas e primárias do mundo material. Assim, um corpo sob impulso se deslocará até ser parado por uma força contrária, e nesse momento, se não receber uma outra carga de energia suficientemente forte, certamente irá parar e estagnar. A Vontade é o motivo anterior que originou o impulso. Mas a Vontade possui autonomia, pois ela é capaz de manter o movimento mesmo depois do impulso acontecer e acabar. No entanto ela pode se dissipar no “mundo das infinitas possibilidades” – como uma professora querida minha gosta de chamar. Assim, da mesma forma que o impulso se deteriora com os diversos atritos da vida, a Vontade pode se dispersar se não houver concentração suficiente na direção de um objetivo conciso.

     A energia que mantêm o movimento está próxima sim da Vontade, porém ainda não é a Vontade da qual falamos aqui. Pois se pararmos nesse ponto ela certamente poderá ser confundida com o desejo.

     A Vontade se distingue do desejo, uma vez que o desejo está mais próximo do anseio, da inclinação quase que irresistível que se origina no emocional, na matéria densa, na mente do eu menor. O desejo certamente pode ser em muitos casos participante no processo de originar a Vontade, mas por si só ele não é a Vontade. O desejo é sustentado pelo ego, a Vontade não. O desejo sobrevive pois é insaciável e devorador. A Vontade facilmente perde o apetite, por isso deve ser alimentada continuamente para poder continuar existindo.

     Ao mesmo tempo a Vontade da qual aqui falamos não é a Intenção. Pois a intenção é o alvo, é aquilo que se vê e que se almeja. A intenção é o estágio primordial da consciência e através de profunda concentração poderemos atingir uma intenção forte o suficiente que permitirá a manifestação da Vontade. Porém a Vontade é aquilo que permite que a intenção e a concentração se mantenham estáveis até que a Consciência plena esteja conquistada.

     Dessa forma, ousarei dizer que talvez a Vontade seja o fogo da vida, que deve ser alimentado constantemente com as lenhas de um propósito inabalável. Para assim poder realizar sua função de mantenedora do impulso primordial do universo. É ela que permite a expansão das intenções e a superação do desejo menor para o Desejo Maior de se encontrar a Consciência e a Verdade sobre a existência.

     Nesse ponto poderemos começar a vislumbrar a ideia de que a Vontade da qual se fala talvez não seja uma atitude, mas sim, um estado. E de difícil acesso. Tal constatação também foi feita por Arjuna, quando em dada passagem ele confessa a dificuldade que vê diante de tudo aquilo que Krishna lhe propõe e que precisa ser feito.

     Arjuna diz: “Eu não posso achar firmeza, ó Herói valente, nessa submissão, nessa resignação e nesse domínio da mente, de que falas. Eu sei que a mente e o coração são instáveis, inquietos, turbulentos, vacilantes, obstinados e insubmissos à vontade. Parece que dominar o coração ou a mente em suas inclinações e seus pensamentos é tão difícil como reter um forte vento”.

     Ao que Krishna responde: “Tens razão, dizendo que é muito difícil dominar a mente, porque é instável e inclina-se ora para um ora para outro objeto; entretanto, quem fortaleceu a sua vontade por meio de exercícios e disciplina, pode ser senhor de seu coração, senhor de sua mente. É Verdade que a Yoga (União Espiritual) é coisa dificílima para quem tem a mente descontrolada, mas é acessível para quem tenha a mente dominada”[7]. Tal é a vitória pela qual se luta.

     Ao contrário do que se poderá pensar, essa luta da qual se fala não é uma busca única do Bhagavada Gita, do praticante de yoga, daquele que quer se iluminar, ou apenas daquele que esteja querendo inserir serenidade e realização em sua vida tumultuada. Essa é uma batalha universal, inescapável, travada por todos os aspectos do universo a todo instante. Portanto se compreendermos esse mistério, estaremos no caminho de compreender aspectos ainda maiores da realidade. Estaremos também compreendendo o que ocorre dentro dos planetas e átomos.

     Há uma coisa interessante que se poderá aprender à partir da física. É que as leis que regem as menores das coisas, são semelhantes ou até mesmo iguais às mesmas leis que regem o mundo das coisas gigantescas. Dessa forma, as mesmas regras que organizam a realidade dos átomos, também limitam o movimento dos astros. Esse conhecimento Físico de paralelismo entre todas as camadas da existência, também faz parte das leis que compõe diversas filosofias, dentre elas a do Yoga e do Ayurveda, a medicina indiana que enxerga o ser humano como um microcosmo do macrocosmo. Além disso a sabedoria hermética do antigo Egito já dizia “o que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima”[8]. Portanto a unidade é a lei. Por isso é mais do que válido dizermos que a Vontade, além de possuir aspecto mental, certamente deve possuir seus aspectos físicos e espirituais dentro do cosmos. Ela é uma energia que se emana desde o início dos tempos, e talvez até antes, transbordando através de toda a realidade.

     Mesmo compreendendo isso, experimentemos agora trazer esse conhecimento para um aspecto mais mundano e próximo do que tocamos e vivenciamos. Há uma regra que carrego comigo de meu aprendizado com as artes. Uma regra que diz respeito ao artista e que diz o seguinte: há três fatores cruciais e interdependentes para que um artista seja verdadeiramente completo. Primeiro (porém a ordem não é relevante) o bom artista necessita de boas técnicas, portanto, um constante estudo lhe permitirá domar suas habilidades no papel, pincel, argila e na matéria. Segundo, o bom artista necessita exercitar profundamente sua criatividade, pois de nada servem as técnicas se o que se faz é copiar sempre o que veio anteriormente, o que já existe, sem se jamais expressar o que existe dentro da particularidade de seu ser. É necessário se aprimorar, se conectar com a intuição, e manifestar formas novas no mundo que estejam ávidas por querer se exprimir. E finalmente, em terceiro lugar, o artista precisa ter a vontade de realizar sua obra. Pois de nada adianta um artista criativo e perito nas façanhas artísticas, se ele já não tem vontade de fazer nada.

     Portanto, os três elementos seriam: técnica, criatividade e vontade.

     E é justamente esses três elementos que iremos trazer para nossa reflexão agora. Iremos expandi-los do microcosmo da realidade mental de um artista, para a Realidade mental do macrocosmos no qual todos existimos e nos manifestamos. Pensando à partir desses três elementos primordiais, perceberemos que a técnica não e nada menos do que o Conhecimento. A criatividade é a manifestação da essência das coisas, a matéria e tudo que existe como expressão única do Todo que se expandiu e dividiu, algo que aqui daremos o misterioso nome de Expressão. E por fim temos a vontade menor, que é também a grande Vontade emanada do universo, sobre a qual já estávamos falando.    

     O número escolhido de três elementos não é por acaso. É intrigante constatar que a tríade ocorre com considerável frequência em todas as filosofias e espiritualidades do mundo e certamente não irei dizer que a ideia dessa tríade: Conhecimento-Expressão-Vontade ocorreu por acaso. A numerologia não faz parte de meus conhecimentos e nem pretendo adentrar nesse assunto de profundidade imensa. Porém irei me arriscar a dizer que pertence ao senso comum que uma cadeira com três pernas será de muito maior estabilidade que uma cadeira de duas. Claro, poderemos defender que um apoio de quatro pernas ou mais será ainda muito mais firme, no entanto o apoio de três terá uma flexibilidade de movimento muito maior ao mesmo tempo que é o mais simples e exclui excessos, além de ser ele o elemento primordial que permite a existência dos planos na geometria. É por esse motivo que, quando há um momento em que uma decisão precisa ser tomada, o número três é muito mais eficiente do que o quatro. Pois quando quatro se reúnem para tomar uma decisão, há grandes chances de dois votarem contra dois e assim, ocorrer um impasse imobilizador. Enquanto que, quando três votam, a imobilidade é impossível, e independente do resultado, nada permanecerá como antes. Dessa forma, poderíamos dizer que ao mesmo tempo em que o três é um número que permite o equilíbrio e a sustentação, ele não exclui a maleabilidade, o conflito e a mudança.

     O elemento três está frequentemente presente nas culturas da humanidade. No hinduísmo encontramos as três divindades Brahman (criador), Vishnu (mantenedor) e Shiva (renovador). No Cristianimos temos o Pai, o filho e o Espírito Santo. No antigo Egito havia Osíris, Isis e Órus. Ainda, na própria Gita há menção de uma tríade bastante importante que faz parte da filosofia do Yoga e do Ayurveda, que é revelado na passagem onde Krishna diz:

     “A Matéria tem três qualidades, princípios ou gunas, que se chamam: Sattwa ou Harmonia, Rajas ou Movimento, e Tamas ou Inércia. Estes três atributos vinculam a alma ao corpo ou o Espírito à Matéria.

     Os seus vínculos são diferentes, mas todos são vínculos. Sattwa, a Harmonia, sendo pura e imaculada, vincula a alma pelo amor ao conhecimento e à harmonia. Quem está em seu poder, renasce por causa dos vínculos que o prendem ao saber e à beleza. Rajas, a Emoção, é a natureza passional, o desejo que vincula a alma, incitando-a a ocupar-se da ação e dos objetos e levando-a ao renascimento pelo apego à ação. Tamas, a inércia, vincula a alma pelos laços da negligência, apatia e preguiça”[9].

     Assim são apresentadas as três gunas: Sattwa, Tamas e Rajas. Elas compõe todos os elementos que promovem a união entre o mundo visível e invisível do universo.   

     Essa união ou vinculo é interpretada no Gita como apego e limitação, sendo que seria o aspecto Sattwa o responsável por trazer a aproximação com os planos mais sutis da existência, reunindo o ser com a lei da Verdade. É ele quem puxa para o alto e através do qual se pode acabar com os ciclos da reencarnação compulsória. No entanto devemos compreender que as três Gunas são partes cruciais do Todo e uma não poderia existir sem a outra. Assim como uma escada só pode ser composta por diversos degraus, também é a vida. O erro advém quando os degraus estão mal encaixados ou colocados no lugar indevido, assim como os Kuravas rebeldes. Tamas seria o elemento da inércia, da estagnação, é ele que mantêm a imutabilidade, portanto o elemento que puxa para baixo, para a matéria e para o lado denso do universo no qual a maioria de nós está limitado. Porém por outro lado, pode ser Tamas também quem traz a base, a sustentação e a estabilidade que permite que o Universo exista e possa se elevar. E Rajas contém o movimento, a mutabilidade, a impossibilidade de se manter o antigo. Ele produz a impulsividade e até mesmo a destruição das coisas. Ao mesmo tempo, é ele quem ativa e transmuta, quem permite que a inércia seja superada e que advenha o novo. É ele, portanto, quem puxa para frente.

     Aplicando o conceito da tríade que havíamos comentado anteriormente, Vontade-Conhecimento-Expressão, poderíamos dizer que é o Conhecimento a força que aproxima os seres desse aspecto da sabedoria cósmica e da harmonia com a lei divina que rege a realidade, portanto ele puxa para cima. No plano da matéria esse Conhecimento se manifesta através das leis da matemática, a sabedoria da natureza na criação perfeita dos corpos, as técnicas impressas dentro dos seres para se compreenderem e se relacionarem com seus meios e entre si. Nesse sentido poderíamos dizer que o Conhecimento conversa com a qualidade Sattwa, aquela que une e nos eleva acima da limitações da matéria e que nos revela a nossa verdadeira essência espiritual e eterna. Indo nessa linha, é a matéria que delimita e que ao mesmo tempo sustenta a realidade, permitindo que todas as coisas existam e se relacionem. Assim chamada por nós de Expressão ela conversa com Tamas, a qualidade que por si só é neutra e inerte, carente por vitalidade e movimento. E por fim, a Vontade é o elemento que faz avançar adiante, na busca da conquista, e que certamente irá destruir o que houver no caminho caso for preciso. Assim é ela que se relaciona com Rajas, a qualidade que traz o movimento e que puxa para frente, que evoca nossas paixões e o fogo interno que muitas vezes foge do nosso controle e nos consome.

     Brahma possui o Conhecimento e por isso pode gerar coisas novas, assim também acontece com o Pai, ou Deus, e Osíris. São eles quem poderiam revelar a Verdade sobre o funcionamento do cosmo, pois são eles quem olham para cima. Mas eles jamais poderiam criar de forma independente.

     Nesse caminho, a Expressão ou Manifestação surge ao mesmo tempo como a criação e o objeto desse funcionamento, ela é o apoio para que Brahma se manifeste e crie, sem o qual ele teria que partir sempre do zero, do desconhecido, do começo vazio.  Essa força é também Isis, Vishnu, ou o Espírito Santo, os mantenedores. E conversam com Tamas na medida em que fazem a ligação entre os mundos e mantêm impressa na realidade a própria lei preestabelecida. Essa força é o instrumento para que a Verdade divina possa se manifestar e ser preservada.

     E por fim temos a força de libertação, Shiva. A potência de renovação e reinterpretação de tudo que existia antes: a Vontade. É ele quem gera o sopro que ativa todas as coisas, a energia que faz o movimento acontecer, que permite que a matéria mude e se expanda. É a qualidade que destrói para transmutar pois contêm Rajas, a energia que não pode ser contida. Ele é também Órus, o portador da justiça e também o filho, que desce para trazer o novo. Sua função pode ser a de administrar ou reformular a criação de seu pai, até que o propósito e a Verdade tenham sido encontrados.  É a energia vital que dorme em Arjuna, em busca do despertar.

     No Gita todo o discurso que Krishna faz a Arjuna tem como principal intuito trazer de volta a ligação do príncipe para com seu compromisso com a eternidade. Portanto é compreensível a ênfase que se dê a Sattwa. No entanto Arjuna se encontra em tamanho estado imobilizado, que Tamas tomou conta de sua vida. E seu corpo se recusa a obedecer e ir adiante.  Para sobrepujar Tamas ele deverá reviver a qualidade de Rajas dentro de si, ainda que a meta final seja Sattwa, estágio esse que, inexoravelmente, um dia também precisará ser transgredido a fim de se alcançar a libertação total. Portanto, o que estamos buscando na guerra pela Vontade, é primeiramente vencer Tamas e atingir Rajas.

     Vencer Tamas e chegar a Rajas é uma batalha silenciosa que ocorre no Gita, dentro de Arjuna, e dentro de todos nós. Tamas é uma qualidade na qual estamos totalmente imersos, a qual habitamos pois fazemos parte da criação. E se Tamas precisa ser superado, é necessário Vontade. Porém, se a Vontade é ao mesmo tempo o objetivo e também o meio para se chegar no objetivo, meio esse que está temporariamente perdido, não resta dúvidas de que será necessário um terceiro elemento atuar para que o problema seja solucionado, e será ele: O Conhecimento.

     Já está mais do que claro que um dos maiores inimigos da verdade, e maior amigo do sofrimento, é a ignorância. Porém ainda mais terrível personagem é o esquecimento. Já foi dito que em nenhum momento Arjuna deixou de ser o grandioso guerreiro que é, ou perdeu as forças internas que regem o seu sentido de honra e dever. O que aconteceu foi um terrível lapso de esquecimento, que permitiu que a dúvida escorregasse pela fresta da janela que se abriu. E tamanha foi a dúvida que se seguiu, que o príncipe já não podia mais retornar a si por conta própria e se proteger do vento de culpas.

     É esse conhecimento esquecido que o Gita busca trazer de volta para a consciência, pois ele será a ancora que permitirá que a Vontade seja atingida, reativada, e que a janela seja fechada. Ao dar tamanha discurso; ao mesmo tempo que possa parecer inovador; Krishna produz imediato e mágico efeito sobre o príncipe desanimado. O que comprova que nenhuma daquelas ideias jamais foi estranha para Arjuna. E isso faz com que algo dentro de seu peito comece a ser despertado. No fundo nada daquilo que Krishna diz já não existia dentro do príncipe, ou já não havia sido escutado. Para que ele possa vencer a enorme dúvida tamásica que o abalou ele deve reviver o conhecimento que acidentalmente se adormecera dentro de seu coração.

     Nós podemos presenciar quando o despertar de Arjuna ocorre à partir do momento em que a curiosidade e avidez por conhecimento ressurge em sua mente e se manifesta em palavras. Seguidamente ele começa a lançar perguntas para Krishna, perguntando sobre isso ou aquilo. É Rajas que está despertando. O desejo sedento por conhecimento está vivo novamente. Da mesma forma ocorre com as pessoas, quando começam a despertar do estado de Tamas. Seus olhos voltam a brilhar, a curiosidade emerge na forma de uma energia sedenta por movimento, e muitas vezes descontrolada, compulsiva, desesperada, uma energia perigosa que precisa ser muito bem trabalhada. Pois não é qualquer conhecimento que conseguirá saciar essa sede. Esse conhecimento deve provir de Sattwa, e precisará ser derramado de forma a submergir todas as partes do corpo até que toda a dúvida seja completamente expulsa de todas as célula físicas e mentais. Pois de que adianta o coração e a mente reviverem a glória da coragem, se os pés ainda estão confusos e intransigentes?

     Seguindo essa ideia, há uma passagem curta de um outro livro que gostaria de inserir aqui, e que fala dessa relação para com o conhecimento, cuja ideia achei bastante intrigante. Yogananda, um importante mestre difusor do yoga no ocidente, menciona em determinado momento de seu livro e autobiografia, um ensinamento que lhe foi passado por seu mestre Sri Yukteswar, a respeito da assimilação do conhecimento. Esse mestre dizia: “A sabedoria não é assimilada com os olhos, mas sim com os átomos. Quando a convicção de uma verdade não estiver apenas no cérebro, mas em todo o seu ser, é que se poderá modestamente dar testemunho de seu significado”[10].   

     O verdadeiro conhecimento não existe na mente, mas sim em toda a expressão do ser e é ali que deve ser buscado. Se acaso não quisermos estar à mercê das intempéries do esquecimento, dos impulsos e das dúvidas temporárias da experiência mundana; assim como aconteceu com Arjuna; devemos nos assegurar que o conhecimento foi assimilado por cada átomo de nosso corpo. E quando isso ocorrer, a batalha estará prestes a terminar antes mesmo de começar.

     Agora nosso bravo guerreiro não está mais totalmente caído e desesperançoso diante da guerra iminente. Nesse momento, poderemos reconhecer os três elementos dentro dele. Sendo o Conhecimento a técnica e o saber de lutar, que jamais o abandonaram, mas que agora estão reunidos com à lembrança latente de seu propósito e de seu dever consigo e com a eternidade. A expressão é o seu próprio corpo, revitalizado pela sabedoria divina, cada átomo sabe seu papel dentro dessa história. E a Vontade, o elemento que momentaneamente havia deixado de se manifestar, está agora ativo promovendo uma ânsia pela Verdade.

     Krishna fala: “Os sentidos dão-te, pelas apropriadas faculdades mentais, o sentimento do calor e do frio, do prazer e da dor. Mas estas mudanças vêm e vão, porque pertencem ao temporário, impermanente, inconstante. Suporta-as com equanimidade, valentia e paciência, ó príncipe!”

     É constante a menção que faz Krishna à necessidade de se haver equanimidade, diante das oposições da vida. Equanimidade mantém profunda relação com o equilíbrio, e o equilíbrio só pode existir onde existe uma cadencia de energia, onde existe ritmo. Esse ritmo deve ser inabalável, e não pode depender dos ventos adversos ou favoráveis da vida. É mais difícil se manter o movimento onde antes não havia movimento algum do que onde o movimento já estava fluindo, tal é a lei da física, chamada de inércia.

     Em outras palavras, diante de adversidades, é mais fácil se manter o equilíbrio estando em movimento do que estando na imobilidade. Para que um corpo se mantenha firme perante forças adversas, o seu corpo deve possuir movimento e energia interna suficientes para mantê-lo na resistência absoluta. Um corpo que está parado mas não possui movimento e energia interna será facilmente carregado por qualquer vento que sopre. O quê Krishna faz é ativar de volta esse impulso primordial que foi perdido dentro do príncipe guerreiro, esse impulso que poderá gerar de volta a força necessária para que ele se erga de volta sobre seus dois pés e retome a energia interna necessária para a luta. Esse impulso virá do conhecimento, que por sua vez, virá do relembrar de sua verdadeira natureza e potência.

     Ele relembra constantemente Arjuna ao longo do livro de qual é o seu papel nessa história, chamando-o de príncipe “ó príncipe dos Pandavas!”. Além da importância do ritmo, é necessário haver a lembrança dos conhecimentos adquiridos. Um artista não deve se esquecer que é artista. O praticante de yoga não deve esquecer o significado de yoga. Todos devemos nos lembrar constantemente de qual o nosso papel, o propósito pelo qual existimos. Um ser humano deve se lembrar que é ser humano, se quiser percorrer essa existência de forma integra e plena. Se ele se esquecer o que significa ser humano, ou pior, se ele se esquecer que é um ser humano, a batalha já estará perdida.

     Não nos esqueçamos do que somos, do que acreditados, do que queremos, pois não há vazios que não sejam rapidamente preenchidos pela fumaça do mundo.

     O Ritmo nesse sentido representa a cadência, a manutenção do movimento e da memória, ele é de fato a força motriz dentro das engrenagens da Vontade. Pois onde o movimento acaba, a Vontade cessa instantaneamente e a memória se perde.

     Nesse momento gostaria de mencionar uma metáfora bastante intrigante que escutei na palestra da filósofa Lucia Helena Galvão, da Nova Acrópole, que certamente ilustra uma das melhores definições que ouvi sobre a Vontade. Ela menciona em sua palestra; que tem como proposta justamente discutir sobre o tema da Vontade; a imagem de um alpinista em seu percurso vigoroso na escalada em direção ao topo de um grande monte congelado. Nessa imagem poderemos distinguir alguns elementos fundamentais para que a ação ocorra e são esses: o propósito, o ritmo e a constância. O alpinista lança sua corda até o ponto mais alto que possa alcançar, e ali ele se certifica que a sua corda esteja firmemente presa. A sua intenção foi lançada e firmada e não será alterada. Ali está o seu Propósito. À partir de então ele começa o seu movimento de tracionar a corda, movendo seu corpo na difícil escalada em direção ao seu destino. A força é a base neutra para que a matéria seja movimentada. Mas é esse movimento de tração constante que representa a verdadeira Vontade, composta por dois elementos chave. O Ritmo e a Constância. É só na presença desses dois elementos que a força pode continuar existindo.

     O alpinista não pode ter dúvidas de onde ele quer chegar, pois qualquer dúvida lhe poderia custar um momento de desatenção que o levaria ao abismo. Ele pode ter dúvidas quanto às formas de se chegar aonde quer, selecionando tal pedra ou outra que sirva de melhor apoio. No entanto o seu destino final, o seu propósito, não pode ser mudado no meio do caminho. A ancora da corda não deve ser deslocada. E para que o caminho seja trilhado, é necessário que haja a Vontade, feita de ritmo e constância. É a força canalizada e devidamente alimentada, na busca por um propósito suficientemente forte para alimentar o ciclo.

    No entanto, o que irá ocorrer se não houver um propósito suficientemente forte para isso? Ou se o propósito for perdido? Certamente o ciclo irá se quebrar, e é isso que vemos ocorrer com o príncipe Arjuna, quando ele vê em cheque tudo aquilo que ele sempre acreditou. Mas a verdade é que ele duvida dos meios para se chegar aonde deve. E o que acaba acontecendo é que, nessa dúvida, ele acaba por se esquece também de onde quer chegar.

     A Vontade é parte essencial da vida de qualquer ser vivo e cada um já travou suas próprias batalhas por sua conquista, ainda que não saiba que qualquer batalha tenha ocorrido. Essa batalha interna é travada no dia a dia, a cada segundo, dentro e fora dos corpos. Ela muitas vezes é silenciosa, outras vezes extremamente barulhenta. Ela acontece na matéria e no espírito. Ela é travada dentro e fora das estrelas, dos planetas, das montanhas, dos seres vivos, de nossa mente, de nossos órgãos, no interior de cada célula do corpo e no coração de cada elétron. A Vontade é a energia primordial que move e permite a continuação da realidade na qual existimos. Ela alimenta o movimento e o movimento a alimenta. Ela é o motor universal que quando chega ao fim de seu ciclo, leva à morte das estrelas, desmoronamento das montanhas, à decadência dos impérios, à ruína existencial do indivíduo, à depressão, à desilusão do coração, fim das amizades e o apagar de uma chama.  

     Ela talvez seja o eco do Big Bang e também a pista para supormos o que havia antes. É ela quem permite o movimento da ida e do retorno. E é ela quem mantêm o movimento dentro de cada ser. Portanto não há criatura que não possa falar da Vontade, pois ela permeia tudo que esteja dentro do Todo. E cada parte é fundamental para ajudar na busca pela compreensão de Seu mistério.

     O que fazer quando a Vontade acaba? A resolução que Krishna nos dá no Gita, é a memória, a lembrança de quem se é. E a essa memória damos o nome de Conhecimento. Como há muito tempo um grande pensador disse: aprender é Relembrar. E se Platão tinha razão, tudo que talvez seja preciso fazer é nos atentarmos à nossa volta, silenciarmos a desesperança, e nos colocarmos à disposição para escutar a Canção de Krishna que estará nos chamando no som dos ventos, no canto das aguas e no murmurar da terra. Nesse momento o ciclo da Vontade se reiniciará, pois seremos capazes de nos recordar da batalha que já foi travada inúmeras vezes através da eternidade, antes de nós e por nós.

     Com as seguintes palavras se reergue Arjuna, de volta sobre seus pés, com o arco em mãos e a determinação na face: “Desvanecida está a minha ilusão. Por Tua graça adquiri o conhecimento, ó imutável Senhor. Estou decidido. Dissiparam-se as minhas dúvidas. Agirei segundo a Tua palavra”[11].

     A grande proposta intrínseca no Gita certamente é a de explicar o funcionamento da vida, sua origem e seu destino. E é através desse esclarecimento que Arjuna pôde ser capaz de revitalizar sua Vontade.

     Ainda assim, nesse momento, poderíamos afirmar que grande foi a chance de Arjuna por encontrar ao seu lado e durante sua aflição um ser de tamanha sabedoria como Krishna, quando tantos outros guerreiros e pessoas do mundo não terão a mesma sorte!

     Entretanto, há ainda um último elemento que gostaria de adicionar à nossa reflexão antes de terminarmos. E esse elemento pode ser bastante sutil, por isso propositadamente não o mencionei antes. Certamente ele poderá ter passado desapercebido por aqueles que não conhecem mais a fundo a história do Mahabarata ou que não se recordam de uma especifica cena que, em minha opinião, é crucial para compreendermos a essência do coração de Arjuna. Pois antes que qualquer batalha houvesse começado, há um capítulo anterior onde um encontro intrigante ocorre.

     Havia sido dado a Arjuna a oportunidade de se encontrar com Krishna em seu leito de descanso, onde também se reuniu o seu grande rival, general dos Kuravas. Nesse momento, ao acordar, Krishna oferece a ambos uma única escolha, dentre obter o apoio total dos seus exércitos divinos para lutar na grande guerra, ou escolher ter para si a sua própria companhia no campo de batalha, apesar de Krishna ter deixado claro que seria inapto para a luta armada. É concedido a Arjuna – por ter estado em boa hora no bom local – a iniciativa da escolha. E nenhum segundo se passa, ele declara sem ter dúvida alguma que prefere a segunda opção. Enquanto que, profundamente aliviado, seu rival escolhe ficar com os poderosos exércitos divinos.

     A escolha de Arjuna por ter o mestre pacifico porém sábio ao seu lado, em um momento em que mil carros de guerra e mil lanças teriam sido de extremo auxílio, é bastante revelador, principalmente para todos aqueles que compreenderam que a humanidade está contida dentro de Arjuna. Como se ele pressentisse sua futura desgraça, o príncipe sabe que a única coisa que ele irá precisar para vencer a guerra é a companhia de Krishna, a divindade que o relembrará de quem ele verdadeiramente é, no momento mais escuro de sua vida. Ainda que a batalha pareça ter sido perdida, será a memória de si que o reerguerá para a vitória verdadeira, e não mil carros de guerra ou cem mil lanças de bravos guerreiros.

     A seguir está uma passagem do livro “A Voz do Silêncio”, escrito por Helena Blavatsky, que achei bastante oportuna nesse momento de início de encerramento de nossa reflexão: “Prepara-te e previne-te a tempo. Se tentaste e fracassaste, ó indômito lutador, não percas, no entanto, a coragem: continua a lutar e renovar a carga, repetidamente. O guerreiro destemido, com o precioso sangue de sua vida escorrendo de suas profundas e abertas chagas, atacará o inimigo, expulsá-lo-á de sua fortaleza, e vencê-lo-á antes dele próprio expirar. Agi, pois, todos vós que fracassais e sofreis, agi como ele; e da fortaleza de vossa Alma expulsai todos os vossos inimigos – a ambição, a cólera, o ódio, e até a sombra do desejo – mesmo quando houverdes fracassado…  Lembra-te, tu lutas pela libertação do homem, cada fracasso é um êxito, e cada tentativa sincera ganha oportunamente o seu prêmio. Os santos germes brotam e crescem invisíveis na Alma do discípulo; seus talos se robustecem a cada nova prova; dobram como juncos mas não quebram, nem podem jamais perder-se. Mas quando soar a hora, florescerão”.

     E quando soou a hora, a escolha de Arjuna mostrou-se a mais poderosa das armas de guerra. Pois Krishna é mais do que o conhecimento, o apoio divino ou um lembrete de quem somos e do quão capazes somos de atingir nossos propósitos. Ele é o símbolo da escolha que fizemos, quando sabíamos que já éramos os seres vitoriosos mesmo antes que houvesse ocorrido o fracasso, antes que a Vontade houvesse nos deixado, e antes que qualquer batalha houvesse começado. Pois fomos nós quem escolhemos ter Krishna e a Verdade ao nosso lado, mesmo que nossos inimigos tenham optado por forças descomunais e aparentemente superiores. Os meios para que a vitória seja atingida sempre estiveram conosco. Bastava que nos recordássemos, à partir das sementes que nós mesmos plantamos.

     Essas sementes florescem na vida na forma de amigos, familiares, cartas inesperadas, sonhos, e até mesmo sopros intuitivos e intangíveis do universo, frutos cultivados através do tempo e aparentemente esquecidos. Aliados poderosos que aguardavam o momento certo para se revelar, durante os tempos mais sombrios de nossa existência.

     Por qual motivo o guerreiro desiste da luta? Por quê a Vontade vai embora? De onde vem esse esquecimento, essa perda interna que impede o ser de realizar o que deve ser realizado? E que muitas vezes leva tantos a terminarem com a própria existência?

     Terminaremos essa reflexão certamente com muitos “por quês” sem respostas. Hastinapura continuará soterrada entre as areias do tempo até que sejamos capazes de reformular nossos pensamentos. E só após uma terrível derrota, quando tudo aparentar estar perdido, que talvez chegaremos enfim à conclusão de que, se a pergunta não pode ser respondida, talvez seja porque deva ser reformulada. E nesse caminho chegaremos à seguinte conclusão: a verdadeira pergunta não se encontra no “Por quê” e sim, no “Para quê”.

     Para que Arjuna perdeu sua vontade?

     Para que a verdadeira batalha fosse travada, para que a verdade fosse revelada, para que os amigos se mostrassem, para que o ser divino se revelasse, para que o verdadeiro enigma fosse tocado, e o caminho e propósito fossem encontrados. Para que o ciclo da Vontade fosse reiniciado com ainda maior fervor e determinação. E pra que o Bhagavad Gita pudesse existir em nosso mundo e assim alimentar mil outras gerações de bravos guerreiros e guerreiras da humanidade, que futuramente certamente irão cair novamente no mesmo embate interno, e o superarão com a ajuda da sabedoria implacável. Assim como Arjuna fez.

     Não cabe ao indivíduo o poder de decidir quais serão as batalhas perdidas ou vencidas. Ao mesmo tempo os seres não devem vencer as guerras pois no fundo todas as batalhas já estão vencidas. A única coisa que lhes cabe é ter a coragem e a determinação de nelas se engajar de forma integra e consciente. E caso não o fizerem dessa forma, a batalha e mesmo a vitória terá sido em vão. Tal é mais um dos grandes ensinamentos dessa obra. Para que Arjuna perdeu a Vontade? Para que o Bhagavada Gita aconteceu? Certamente para que todo esse aprendizado e essa experiência tenham ocorrido. E assim teremos um Arjuna liberto, um Arjuna Consciente que lutou a última guerra interna e por isso venceu por toda a eternidade. Ele venceu a Guerra pela sua Vontade. Essa guerra que é a nossa também, e que acontecerá todos os dias até além dos fins dos tempos.

     Assim chegamos ao fim de nosso ensaio. E gostaria de terminar com um trecho do já mencionada livro “Luz no caminho”, cujas palavras certamente poderão reverberar de forma bela as conclusões silenciosas de nossas reflexões:   

     “Procura pela flor que desabrocha durante o silêncio que se segue à tormenta: não antes. Ela crescerá, se desenvolverá, lançará ramos e folhes, formará botões enquanto a tempestade prosseguir, enquanto perdurar a batalha. Porém, só quando toda a personalidade estiver dissolvida e desvanecida – só quando for mantida pelo divino fragmento que a criou como mero instrumento de experimentação e experiência – só quando toda a natureza houver cedido e sido submetida ao seu Eu Superior, é que o botão pode se abrir. Então haverá uma calma semelhante àquela que ocorre em uma zona tropical após uma chuva torrencial, quando toda a Natureza parece operar tão rapidamente, que é possível vê-la em ação. Essa calma descerá sobre o espírito fatigado. E no profundo silêncio ocorrerá o misterioso acontecimento que comprovará que o caminho foi encontrado.

    Não importa como tu a chames; é uma voz que fala onde não há ninguém para falar – é um mensageiro que vem, um mensageiro sem forma nem substância; ou antes, é a flor da alma que se abriu. Este acontecimento não pode ser descrito por qualquer metáfora. Pode, porém, ser pressentido, buscado e desejado mesmo em meio ao furor da tempestade. O silêncio pode durar um momento ou prolongar-se por mil anos. Porém, terá fim. No entanto, levarás contigo a força dele. Outra e outra vez a batalha tem que ser travada e ganha. É só durante um intervalo que a natureza pode permanecer tranquila”.

Referencias:

Livros:

Bhagavad Gita, a mensagem do mestre. Editora Pensamento, 2006.

A Voz do Silêncio, H.P.B Blavatsky. Editora pensamento, 1889.

Luz no Caminho, Mabel collins. Editora Teosófica, 2011.

Autobiografia de um Iogue, Paramahansa Yogananda. Editora Self-Realization

Fellowship, traduzido para o português em 2016.

Mahabharata, Les Grands Classiques de Tous les temps. Editora Gründ, 1992.

 Vídeos no youtube:

VONTADE: Poder Transformador, Prof. Lúcia Helena Galvão de Nova Acrópole. Palestra de 2017

link: https://www.youtube.com/watch?v=NU7_2Wu1tDo&t=823s

BHAGAVAD GITA, Comentários filosóficos sobre o livro sagrado indiano, Prof. Lúcia Helena Galvão de Nova Acrópole. Palestra de 2016

link: https://www.youtube.com/watch?v=FYqJ5fwR4Ps

– Filme: O Mahabharata, Peter Brook, 1989.

Link: https://www.youtube.com/watch?v=VMlNrbfT8nI


[1] Página 21. (Uma explanação importante se refere à versão do livro que foi utilizada para se extrair algumas passagens que achei interessante inserir nessa reflexão. Tive por base a edição da editora Pensamento, de 2006).

[2] Reflexões da palestra no youtube “VONTADE: Poder Transformador”, da prof. Lúcia Helena Galvão de Nova Acrópole.

[3] Reflexões da palestra no youtube “VONTADE: Poder Transformador”, da prof. Lúcia Helena Galvão de Nova Acrópole.

[4] Página 32.

[5] Página 32.

[6] Página 67.

[7] Página 80.

[8] Livro Caibalion.

[9] Página 140.

[10] Página 163, do livro “Autobiografia de um Iogue”.

[11] Página 174.

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